Introdução

Há muito o que ser aprendido. Há muito o que podemos extrair do que vemos, tocamos, ouvimos, e acima de tudo, sentimos. Nossa sabedoria vem dos retalhos que vamos colhendo ao longo de nossa evolução, que os leva a formar a colcha que somos. Esse espaço é para que eu possa compartilhar das luzes que formam o que Eu tenho sido!!!
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terça-feira, 13 de janeiro de 2026

A PERFEIÇÃO POSSÍVEL: DEVER, CONSCIÊNCIA E TRANSFORMAÇÃO DO MUNDO

Ao longo da história humana, a ideia de transformar o mundo quase sempre esteve associada a grandes feitos, reformas estruturais ou personagens extraordinários. O pensamento espírita, entretanto, herdeiro direto do ensino moral do Cristo, desloca esse eixo: a verdadeira revolução começa no íntimo do homem comum, no modo como ele vive os deveres que lhe cabem. É nesse ponto que dialogam, com harmonia profunda, o item 7 do capítulo XVII de O Evangelho segundo o Espiritismo e a reflexão de Emmanuel no capítulo 2 de Caminho, Verdade e Vida.


Quando Emmanuel afirma que seria justo examinar “como se elevaria o mundo se cada homem cuidasse de sua parte, nos deveres comuns, com perfeição e sinceridade”, ele convida o leitor a um exercício de lucidez moral. Não se trata de utopia distante, mas de uma hipótese concreta: e se cada espírito assumisse, com seriedade e honestidade, a responsabilidade que já lhe pertence? O mundo, nessa perspectiva, não melhora por decretos externos, mas por coerência íntima.

Essa mesma ideia estrutura o item 7 do capítulo XVII do Evangelho segundo o Espiritismo, quando Kardec descreve o verdadeiro homem de bem. Ele não é identificado por títulos, crenças declaradas ou práticas exteriores, mas pela maneira como cumpre seus deveres. Age com justiça, benevolência e caridade; respeita as leis divinas porque as compreende; pratica o bem sem ostentação e sem aguardar ocasiões extraordinárias. Sua moral se revela no cotidiano.

O ponto de encontro entre os dois textos está justamente na valorização do dever comum como espaço privilegiado de crescimento espiritual. Emmanuel não fala de heróis morais isolados do mundo, mas de homens e mulheres inseridos na vida social, familiar e profissional. Kardec, por sua vez, não propõe um modelo de perfeição inacessível, mas uma ética vivida passo a passo, no relacionamento com o próximo e consigo mesmo.

Ambos rompem com a falsa ideia de que a santidade exige fuga das responsabilidades humanas. Pelo contrário, mostram que é no exercício delas que o espírito se educa. Trabalhar com honestidade, conviver com paciência, servir sem esperar recompensas, agir com sinceridade — eis a perfeição possível, aquela que está ao alcance de todos e que, somada, eleva o mundo.


Há, ainda, um aspecto pedagógico fundamental nessa convergência: ela desloca o foco da crítica social para a autocrítica moral. Em vez de perguntar por que o mundo é imperfeito, o ensinamento espírita convida o indivíduo a indagar como ele próprio tem contribuído para essa imperfeição ou para sua superação. Emmanuel é incisivo ao afirmar que a elevação do mundo depende da parte que cada um realiza. Kardec confirma essa lógica ao mostrar que o progresso moral é sempre pessoal antes de ser coletivo.

Assim, a perfeição ensinada por Jesus — “sede perfeitos” — não é uma exigência abstrata, mas um chamado à fidelidade diária ao bem. O mundo se transforma quando o homem se transforma; a sociedade se regenera quando os indivíduos se regeneram; e essa regeneração começa, silenciosamente, no modo como cada espírito honra os deveres que a vida lhe confiou.

Nesse sentido, Emmanuel não apenas comenta o Evangelho: ele o vivifica. E Kardec não apenas codifica a moral cristã: ele a torna praticável. Juntos, apontam um caminho claro e exigente, mas profundamente humano: fazer bem o que nos cabe, onde estamos, com sinceridade de coração.

(Texto produzido pela IA com parametrizações de Emerson Santos)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O TEMPO COMO CAPITAL MORAL: UMA LEITURA ESPÍRITA DA EXISTÊNCIA

Vivemos em uma civilização que pensa a vida em termos de capital: capital financeiro, capital intelectual, capital social. 

Tudo é avaliado pelo que rende, pelo que produz, pelo retorno que oferece. Nesse contexto, o tempo é frequentemente percebido como escasso, fugaz, algo que se perde ou se desperdiça.

À luz da Doutrina Espírita, essa percepção se transforma profundamente. Para o Espírito imortal, o tempo não se extingue. 

Ele não é confiscado pela morte nem limitado pela existência corporal. O que se altera não é o tempo em si, mas a forma como o Espírito o utiliza e o converte em progresso moral.

Allan Kardec identifica como fundamento da Doutrina Espírita a imortalidade da alma. Sendo o Espírito imortal, o tempo não pode ser compreendido como algo que se perde definitivamente. Em “O Céu e o Inferno”, Kardec afirma que a alma conserva, após a morte, as qualidades, os defeitos e as paixões que possuía na Terra. Nada se apaga, nada se anula. O tempo vivido permanece inscrito na consciência.

Dessa forma, o tempo pode ser compreendido como um verdadeiro capital moral. Cada encarnação representa um período delimitado de aplicação desse capital, um conjunto específico de oportunidades educativas. O valor não está na duração da vida, mas na forma como ela é vivida.

Na segunda parte de “O Céu e o Inferno”, dedicada aos exemplos dos Espíritos após o desencarne, observa-se que o lamento mais recorrente não é o de ter vivido pouco, mas o de não ter aproveitado bem a existência corporal. Os Espíritos sofrem pela consciência desperta de que o tempo disponível poderia ter sido convertido em crescimento moral, em reparação, em amor.

Kardec esclarece que o sofrimento espiritual não constitui punição arbitrária, mas consequência natural do uso inadequado do livre-arbítrio. O prejuízo não consiste na perda do tempo, mas na ausência de rendimento espiritual daquele período. O capital permanece, mas o Espírito precisa retomar o aprendizado em novas condições.

Essa compreensão encontra respaldo direto no Evangelho. Na parábola dos talentos, Jesus ensina que a cada um é confiado algo segundo sua capacidade, e que o mérito não está na quantidade recebida, mas no uso que se faz do que foi confiado. O servo censurado não perdeu o talento; ele o enterrou, deixando de fazê-lo frutificar.

Quando Jesus afirma que é preciso trabalhar enquanto é dia, Ele não anuncia o fim do tempo, mas o fim de determinadas condições favoráveis. O tempo continua, mas as oportunidades mudam.

Assim, à luz da Doutrina Espírita, o tempo é o único capital que o Espírito jamais deixa de possuir. Cada encarnação é um recorte pedagógico desse capital infinito. O sofrimento nasce não da falta de tempo, mas da percepção tardia de que ele poderia ter sido melhor utilizado.

O tempo não se perde. Ele se transforma em consciência, em aprendizado ou em necessidade de reparação. Cabe a cada Espírito decidir se fará desse capital um instrumento de progresso ou de atraso.

(Reflexão produzida com auxílio da IA a partir da parametrização realizada por Emerson Santos com base no livro "O Céu e o Inferno".)



quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

A MORAL DO EVANGELHO E A IMPESSOALIDADE DA INTERPRETAÇÃO

Uma leitura convergente entre Allan Kardec e Emmanuel

A leitura dos textos sagrados sempre desafiou a inteligência humana, não apenas pela complexidade simbólica de sua linguagem, mas sobretudo pela exigência moral que impõem à consciência. No âmbito do Espiritismo, esse desafio é enfrentado por meio de um método que une razão, universalidade e vivência ética. É nesse contexto que se harmonizam duas orientações aparentemente distintas, mas profundamente complementares: a advertência de Emmanuel, no prefácio de Caminho, Verdade e Vida, de que a Bíblia “não seja de particular interpretação”, e a afirmação de Allan Kardec, na introdução de O Evangelho Segundo o Espiritismo, de que “a parte moral do Evangelho é a que nos interessa”.


À primeira vista, poderia parecer que a recusa à interpretação particular limitaria a liberdade de compreensão individual, enquanto a ênfase kardeciana na moral abriria espaço a múltiplas leituras subjetivas. No entanto, uma análise mais atenta revela que ambas as proposições caminham na mesma direção: a preservação do caráter universal, impessoal e transformador do ensinamento evangélico.

Quando Emmanuel alerta contra a “interpretação particular”, não se refere ao esforço legítimo de compreensão, nem à aplicação pessoal dos ensinamentos do Cristo. O que se combate é o personalismo interpretativo — isto é, a leitura condicionada pelo ego, pela vaidade intelectual ou pelo interesse circunstancial do intérprete. A Escritura, nesse sentido, não pode ser moldada ao leitor; é o leitor que deve ser progressivamente educado por ela. O texto sagrado deixa de cumprir sua função quando se transforma em instrumento de confirmação de opiniões pessoais, afastando-se de sua finalidade maior: a edificação moral do Espírito.

Allan Kardec, ao afirmar que a parte moral do Evangelho é a que verdadeiramente importa, estabelece um critério seguro de leitura. Ele não propõe uma seleção arbitrária do texto bíblico, mas uma depuração metodológica. Ao retirar do campo de análise os elementos dogmáticos, milagrosos ou historicamente controversos, Kardec preserva aquilo que resiste ao tempo, às culturas e às crenças: a ética do amor, da caridade, da justiça e da humildade. A moral evangélica, por sua própria natureza, não pertence a uma tradição exclusiva, nem a uma interpretação individual; ela se dirige à humanidade como um todo.

É precisamente nesse ponto que as duas abordagens convergem. O Evangelho não admite interpretação particular porque sua essência é moral e universal. Sendo a moral do Cristo aplicável a todos, ela não pode ser fragmentada segundo interesses pessoais ou compreendida fora do conjunto harmônico de seus princípios. A verdadeira interpretação, portanto, não se realiza no plano da opinião, mas no da consciência. Não é um exercício de erudição, mas de transformação interior.


Isso não significa uniformidade mecânica de compreensão. Cada Espírito assimila a moral evangélica conforme seu grau evolutivo, suas experiências e suas necessidades íntimas. A lei é una, mas a vivência é progressiva. A interpretação não deve ser particular no sentido egoísta, mas a aplicação é inevitavelmente pessoal, pois se dá no campo da experiência individual. Assim como uma mesma luz se refrata de modos distintos conforme o cristal que a recebe, a moral do Evangelho ilumina as consciências segundo sua capacidade de refletir.

Kardec oferece o eixo doutrinário: o conteúdo essencial do Evangelho está na moral. Emmanuel oferece a atitude espiritual: humildade, disciplina interior e fidelidade ao espírito do ensinamento. Juntos, eles nos conduzem a uma hermenêutica que não separa entendimento e vivência, estudo e reforma íntima. Ler o Evangelho, nesse contexto, é um ato de responsabilidade espiritual, em que o sentido último do texto se revela menos pelas palavras compreendidas e mais pelas virtudes incorporadas.

Desse modo, a advertência contra a interpretação particular não limita o pensamento; ao contrário, liberta-o do ego e o conduz à universalidade do amor ensinado por Jesus. A moral do Evangelho, sendo o ponto de interesse central, torna-se também o critério de autenticidade de toda leitura: aquilo que não conduz à transformação moral do ser ainda não foi verdadeiramente compreendido.

(Texto produzido pela IA com parametrização de Emerson Santos)

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

A AURORA DOS NOVOS DIAS


"Eis-me aqui, eu que não evocais, mas que estou ansiosa para ser útil à Sociedade, cujo objetivo é tão sério quanto o é o vosso. Falarei de política. Não vos assusteis: sei em que limites devo restringir-me.
 

A situação atual da Europa oferece o mais impressionante aspecto ao observador. Em nenhuma época — não excetuo nem mesmo o fim do último século, que fez tão grande estrago nos preconceitos e abusos que oprimiam o espírito humano — o movimento intelectual se fez sentir mais ousado, mais franco. Digo franco, porque o espírito europeu marcha na verdade. 

A liberdade não é mais um fantasma sangrento, mas a bela e grande deusa da prosperidade pública. Na própria Alemanha, nesta Alemanha que retratei com tanto amor, o sopro ardente da época destrói os últimos baluartes dos preconceitos. Sede felizes, vós que viveis em tal momento; porém, mais felizes ainda serão os vossos descendentes. Aproxima-se a hora anunciada pelo precursor. Vedes empalidecer o horizonte, mas, como outrora os hebreus, ficareis no limiar da Terra Prometida e não vereis levantar-se o sol radioso dos novos dias."

Mensagem recebida na Sociedade de Estudos Espíritas coordenada por Allan Kardec, pela médium Sra. Costel e atribuída a importante escritora francesa desencarnada conhecida como Madame Stael, publicada na Revista Espírita de agosto de 1861. 

domingo, 21 de março de 2021

DESGOSTO DA VIDA. SUICÍDIO

A ociosidade, a falta de fé e muitas vezes a saciedade são as causas de desgosto pela vida que se apodera de certos indivíduos.

Para aquele que exerce suas faculdades com fim útil e de acordo com suas aptidões naturais, o trabalho nada tem de árduo e a vida se escoa com mais rapidez.

O suicídio voluntário é uma transgressão da Lei Divina.

As tribulações da vida são provas ou expiações. Felizes os que as suportam sem se queixar, porque serão recompensados.

Aqueles que colaboram para que as pessoas se desesperem a ponto de cometer o suicídio responderão por um assassínio.

O suicida cujo desespero nasceu do orgulho sofrerá mais.


Há enorme grandeza em lutar contra a adversidade afrontando criticamente um mundo fútil e egoísta. Sacrificar a vida a consideração desse mundo é uma estupidez, pois ele não levará em conta nada disso.

Como se teve a coragem de praticar o mal, é preciso tê-lo também para sofrer-lhe as consequências.

A intenção do suicida lhe atenua a falta, mas nem por isso deixa de haver falta.

Se abolirdes da vossa sociedade os abusos e os preconceitos, não mais tereis suicídios.

O suicídio nada repara.

Uma falta, não importa a sua natureza, jamais abre a quem quer que seja o santuário dos eleitos.

O sacrifício só é meritório quando feito com desinteresse. Aquele que o pratica munido por segundas intenções lhe diminui o valor aos olhos de Deus.

As penas são sempre proporcionais à consciência que se tenha das faltas cometidas.

Não há culpabilidade quando não há intenção ou perfeita consciência da prática do mal.

Reflexões extraídas de “O Livro dos Espíritos”, questões 943 a 957. 

Para aprofundamento sobre o tema verificar também o capítulo v, Suicidas, da segunda parte do livro “O Céu e o Inferno ou a Justiça Divina segundo o Espiritismo.

domingo, 25 de agosto de 2019

A ARISTOCRACIA INTELECTO-MORAL DO FUTURO


Aristocracia vem do grego aristos, o melhor, e Kratus, poder: a aristocracia, em sua acepção literária, significa, pois: poder dos melhores. Convir-se-á que o sentido primitivo foi, por vezes, singularmente desviado; mas vejamos que influência o Espiritismo pode exercer sobre a sua aplicação. Para isso tomemos as coisas no ponto de partida e sigamo-las através das idades, para delas deduzir o que ocorrerá mais tarde.

Em nenhum tempo, nem em nenhum povo, os homens em sociedade puderam abster-se de chefes; são encontrados entre os povos mais selvagens. Isso se prende a que, em razão da diversidade das aptidões e dos caracteres inerentes à espécie humana, há por toda a parte homens incapazes que é preciso dirigir, fracos que é necessário proteger, paixões que é preciso comprimir; daí a necessidade de uma autoridade. Sabe-se que, nas sociedades primitivas, essa autoridade foi deferida aos chefes de família, aos anciãos, aos velhos, em uma palavra, aos patriarcas; essa foi a primeira de todas as aristocracias.

Tornando-se as sociedades mais numerosas, a autoridade patriarcal ficou impossibilitada em certas circunstâncias. As querelas entre populações vizinhas ocasionaram os combates; foi preciso para dirigi-las não de velhos, mas de homens fortes, vigorosos e inteligentes; daí os chefes militares. Vitoriosos esses chefes, se lhes conferia a autoridade, esperando encontrar, em sua bravura, uma garantia contra os ataques dos inimigos; muitos, abusando de sua posição, dela se apoderaram eles mesmos; depois, os vencedores se impuseram aos vencidos, ou os reduziram à servidão; daí a autoridade da força bruta, que foi a segunda aristocracia.

Os fortes, com seus bens, transmitiram, muito naturalmente, sua autoridade aos seus filhos, e os fracos sob compressão, não ousando nada dizer, se habituaram, pouco a pouco, a considerar estes como os herdeiros dos direitos conquistados pelos seus pais, e como seus superiores; daí a divisão da sociedade em duas classes: os superiores e os inferiores, aqueles que mandam e aqueles que obedecem; daí, por conseqüência, a aristocracia de nascimento, que se torna tão poderosa e tão preponderante quanto a da força, porque ela não tinha força por si mesma, como nos primeiros tempos em que era preciso pagar por sua pessoa, ela dispunha de uma força mercenária. Tendo todo o poder, se dava, naturalmente, privilégios.

Para a conservação desses privilégios, era preciso lhes dar o prestígio da legalidade, e ela fez as leis em seu proveito, o que lhe era fácil, uma vez que só ela as fazia. Isso não era sempre suficiente; deu-se o prestígio do direito divino, para torná-las respeitáveis e invioláveis. Para assegurar o respeito da parte da classe submissa que se tornava mais numerosa, e mais difícil de contentar, mesmo pela força, não havia senão um meio, impedi-la de ver claro, quer dizer, mantê-la na ignorância.

Se a classe superior tivesse podido nutrir a classe inferior sem nada fazer, a teria facilmente dominado por muito tempo ainda; mas como esta era obrigada a trabalhar para viver, e trabalhar tanto mais quanto era oprimida, disso resultou que a necessidade de encontrar, sem cessar, novos recursos, de lutar contra uma concorrência invasora, de procurar novos mercados para os produtos, desenvolveu a sua inteligência, e ela se esclareceu pelas mesmas causas das quais se serviu para sujeitá-la. Não se vê aí o dedo da Providência?

A classe submissa, portanto, viu claro; viu a pouca consistência do prestígio que se lhe opunha e, sentindo-se forte pelo número, aboliu os privilégios e proclamou a igualdade diante da lei. Esse princípio marcou, em certos povos, o fim do reino da aristocracia de nascimento, que não é mais do que nominal e honorífica, uma vez que ela não confere mais direitos legais.

Então, se levantou um novo poder, o do dinheiro, porque com dinheiro se dispõe de homens e de coisas. Era um sol diante do qual se inclinava, como outrora se inclinava diante de um brasão, e mais baixo ainda. O que não se concedia mais ao título, se concedia à fortuna, e a fortuna teve os seus privilégios iguais. Mas, então, percebeu-se que , se para fazer fortuna é preciso uma dose de inteligência, não era preciso tanto para herdá-la, e que os filhos são, freqüentemente, mais hábeis para comer do que para ganhar, que os próprios meios de se enriquecer nem sempre são irrepreensíveis; disso resultou que o dinheiro perdeu, pouco a pouco, seu prestígio moral, e que essa força tende a se substituir por um outro poder, uma outra aristocracia mais justa: a da inteligência, diante da qual todos podem se inclinar sem se aviltar, porque ela pertence ao pobre como ao rico.

Será essa a última? Ela é a alta expressão da Humanidade civilizada? Não.

A inteligência nem sempre é uma garantia de moralidade, e o homem mais inteligente pode fazer um emprego muito mau de suas faculdades. Por outro lado, só a moralidade pode, a miúdo, ser incapaz. A união dessas duas faculdades, inteligência e moralidade, é, pois, necessária para criar uma preponderância legitima, e à qual a massa se submeterá cegamente, porque lhe inspirará toda a confiança por suas luzes e por sua justiça. Será a última aristocracia, a que será a conseqüência, ou antes, o sinal do advento do reino do bem sobre a Terra. Chegará muito naturalmente pela força das coisas; quando os homens dessa categoria forem bastante numerosos, para formarem uma maioria imponente, será a eles que a massa confiará os seus interesses.


Como vimos, todas as aristocracias têm a sua razão de ser; nascem do estado da Humanidade; ocorrerá o mesmo com aquela que se tornar uma necessidade; todas fizeram, ou farão, o seu tempo segundo o país, porque nenhuma teve por base o princípio moral; só esse princípio pode constituir uma supremacia durável, porque será animado dos sentimentos de justiça e de caridade; supremacia que chamaremos: aristocracia intelecto-moral.

Um tal estado de coisas é possível com o egoísmo, o orgulho, a cupidez que reinam soberanos sobre a Terra? A isso responderemos com firmeza: sim, não somente é possível, mas chegará, porque é inevitável.

Hoje, a inteligência domina; é soberana, ninguém poderia contestá-lo; e isso é tão verdadeiro que vedes o homem do povo chegar aos primeiros cargos. Essa aristocracia não é mais justa, mais lógica, mais racional do que a da força brutal, de nascimento ou do dinheiro? Por que, pois, seria impossível juntar-lhe a moralidade? - Porque, dizem os pessimistas, o mal domina sobre a Terra. - Está dito que o bem não o dominará jamais? Os costumes e, por conseqüência, as instituições sociais, não valem cem vezes mais hoje do que na Idade Média? Cada século não foi marcado por um progresso? Por que, pois, a Humanidade se deteria quando tem ainda tanto a fazer? Os homens, por um instinto natural, procuram seu bem-estar; se não o encontram completo no reino da inteligência, procurá-lo-ão alhures; e onde poderão encontrá-lo se não for no reino da moralidade? Para isso, é preciso que a moralidade domine numericamente. Há muito a fazer, é incontestável, mas, ainda uma vez, haveria tola presunção em dizer que a Humanidade chegou ao seu apogeu, quando é vista a marchar, sem cessar, no caminho do progresso.

Dizemos primeiro que os bons, sobre a Terra, não são inteiramente tão raros quanto se crê; os maus são numerosos, isto infelizmente é verdade; mas o que os faz parecer ainda mais numerosos, é que são mais audazes, e sentem que essa audácia mesma lhes é necessária para triunfarem; e, todavia, compreendem de tal modo a preponderância do bem que, não podendo praticá-lo, dele tomam a máscara.

Os bons, ao contrário, não exibem as suas boas qualidades; não se colocam em evidência e eis porque parecem tão pouco numerosos; mas sondai os atos íntimos, realizados sem ostentação, e, em todas as classes da sociedade, encontrareis ainda bastante boas e louváveis naturezas para vos tranqüilizar o coração e não desesperar da Humanidade. E, depois, é preciso dizer também, entre os maus há muitos que não o são senão por arrastamento, e que se tornariam bons se fossem submetidos a uma boa influência. Coloquemos em fato que, sobre 100 indivíduos, há 25 bons e 75 maus; sobre estes últimos, há deles 50 que o são por fraqueza, e que seriam bons se tivessem bons exemplos sob os olhos, e se, sobretudo, tivessem tido uma boa direção desde a infância; e que sobre os 25 francamente maus, nem todos são incorrigíveis.

No estado atual das coisas, os maus estão em maioria e fazem a lei para os bons; suponhamos que uma circunstância leve à conversão dos 50 medianos, os bons estarão em maioria e farão a lei por seu turno; sobre os 25 outros francamente maus, vários sofrerão a influência, e não ficarão senão alguns incorrigíveis sem preponderância.

Tomemos um exemplo para comparação: Há povos entre os quais o assassínio e o roubo são o estado normal; o bem ali é exceção. Entre os povos mais avançados e os melhores governados da Europa, o crime é exceção; perseguido pelas leis, e sem influência sobre a sociedade. O que ali ainda domina são os vícios de caráter: o orgulho, o egoísmo,a cupidez e seu cortejo.

Por que, pois, esses povos progredindo, os vícios ali não se tornariam a exceção, como o são hoje os crimes, ao passo que os povos inferiores alcançariam novo nível? Negar a possibilidade dessa marcha ascendente seria negar o progresso.

Seguramente, tal estado de coisas não poderia ser a obra de um dia, mas se há uma causa que deve apressar-lhe o advento, sem nenhuma dúvida, é o Espiritismo. Agente por excelência da solidariedade humana, mostrando as provas da vida atual como a conseqüência lógica e racional das ações realizadas nas existências anteriores, fazendo de cada homem o artífice voluntário de sua própria felicidade, de sua vulgarização universal resultará, necessariamente, uma elevação sensível do nível moral atual.

Os princípios gerais de nossa filosofia estão apenas elaborados e coordenados, e já reuniram , numa imponente comunhão de pensamentos, milhões de adeptos disseminados sobre toda a Terra. Os progressos realizados sob a sua influência, as transformações individuais e locais que provocaram, em menos de quinze anos, nos permitem apreciar as imensas modificações fundamentais que são chamados a determinar no futuro.

Mas se, graças ao desenvolvimento e à aceitação geral dos ensinos dos Espíritos, o nível moral da Humanidade tende constantemente a se elevar, enganar-se-ia estranhamente supondo-se que a moralidade se tornará preponderante com relação à inteligência. O Espiritismo, com efeito, não pede para ser aceito cegamente. Ele apela para a discussão e a luz.

"Em lugar da fé cega, que anula a liberdade de pensar, ele disse: Não há fé inabalável senão aquela que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da Humanidade. À fé, é necessária uma base, e essa base é a inteligência perfeita do que se deve crer; para crer, não basta ver, é preciso sobretudo compreender." (O Evangelho Segundo o Espiritismo.) É, pois, com justiça que podemos considerar o Espiritismo como um dos mais poderosos precursores da aristocracia do futuro, quer dizer, da aristocracia intelecto-moral.

Allan Kardec 

domingo, 5 de maio de 2019

A RELIGIÃO E O PROGRESSO

Hoje geralmente se pensa que a Igreja admite o fogo do inferno como um fogo moral e não como um fogo material. Tal é, pelo menos, a opinião da maioria dos teólogos e de muitos eclesiásticos esclarecidos. Contudo, é apenas uma opinião individual, e não uma crença adquirida pela ortodoxia, pois, do contrário, seria universalmente professada. Pode julgar-se pelo seguinte quadro, que um pregador traçou do inferno, durante a última quaresma, em Montreuil-sur-Mer:

“O fogo do inferno é milhões de vezes mais intenso que o da Terra, e se um dos corpos que ali queimam sem se consumir viesse a ser lançado no nosso planeta, empestá-lo-ia de ponta a ponta! O inferno é uma vasta e sombria caverna, guarnecida de pregos pontiagudos, de lâminas de espadas afiadas, de navalhas bem cortantes, na qual são precipitadas as almas dos danados!”

Seria supérfluo refutar esta descrição; no entanto, poderíamos perguntar ao orador onde colheu um conhecimento tão preciso do lugar que descreve. Por certo não foi no Evangelho, onde não se trata de pregos, nem de espadas, nem de navalhas. Para saber se essas lâminas são bem afiadas e bem cortantes, é preciso tê-las visto e experimentado. Será que, novo Enéas ou Orfeu, ele próprio teria descido a essa caverna sombria que, aliás, muito se assemelha ao Tártaro dos pagãos? Além disso, ele deveria ter explicado a ação que pregos e navalhas poderiam ter sobre as almas e a necessidade de serem bem afiados e de boa têmpera. Já que conhece tão bem os detalhes interiores do local, também deveria ter dito onde está situado. Não é no centro da Terra, pois supõe a hipótese de um dos corpos que ela encerra ter sido lançado em nosso planeta. Então é no espaço? Mas a astronomia aí fixou o seu olhar muito antes, sem nada descobrir. É verdade que não olhou com os olhos da fé.

Seja como for, o quadro é feito para seduzir os incrédulos? É bastante duvidoso, pois é mais adequado para diminuir o número dos crentes.

Em contrapartida, citaremos o seguinte trecho de uma carta escrita de Riom, e relatada no jornal Vérité, em seu número de 20 de março de 1864:

“Ontem, para minha grande surpresa e satisfação, ouvi com os próprios ouvidos esta serena confissão da boca de um eloquente pregador, em presença de numeroso e atônito auditório: não há mais inferno… o inferno não existe mais… foi substituído admiravelmente pelos fogos da caridade e do amor, que resgatam as nossas faltas! Nossa divina doutrina (o Espiritismo) não está encerrada inteiramente nestas poucas palavras?”

É inútil dizer qual dos dois teve mais simpatias do auditório; mas o segundo poderia até ser acusado de heresia pelo primeiro. Outrora teria expiado, infalivelmente, na fogueira ou numa masmorra a audácia de haver proclamado que Deus não manda queimar as suas criaturas.

Esta dupla citação nos sugere as seguintes reflexões:

- Se uns acreditam na materialidade das penas, enquanto outros a negam, necessariamente uns laboram em erro e outros têm razão.

- Este ponto é mais capital do que parece à primeira vista, porque é o caminho aberto às interpretações numa religião fundada na unidade absoluta da crença e que, em princípio, repele a interpretação.

- É bem certo que até hoje a materialidade das penas tem participado das crenças dogmáticas da Igreja. Por que, então, nem todos os teólogos lhe dão crédito? Como nem uns, nem outros o verificaram por si mesmos, o que leva alguns a ver apenas uma imagem onde outros veem a realidade, senão a razão que, nos primeiros, supera a fé cega? Ora, a razão é o livre-exame.

- Eis, pois, a razão e o livre-exame entrando na Igreja pela força da opinião. Poder-se-ia dizer, sem metáfora, pela porta do inferno; é a mão posta no santuário dos dogmas, não pelos leigos, mas pelo próprio clero.

- Não se julgue esta uma questão de menor importância, pois contém em si o germe de toda uma revolução religiosa e de um imenso cisma, muito mais radical que o protestantismo, porque não ameaça apenas o catolicismo, mas o protestantismo, a Igreja grega e todas as seitas cristãs. Com efeito, entre a materialidade das penas e as penas puramente morais, há toda a distância do sentido próprio ao sentido figurado, da alegoria à realidade. Desde que se admitam as chamas do inferno como alegoria, torna-se evidente que as palavras de Jesus: “Ide ao fogo eterno” têm um sentido alegórico. Daí a consequência de que o mesmo deve acontecer com outras de suas palavras.

- Mas a consequência mais grave é esta: uma vez que se admita a interpretação sobre um ponto, não há motivo para a rejeitar sobre outros; é, pois, como dissemos, a porta aberta à livre discussão, um golpe mortal desferido no princípio absoluto da fé cega. A crença na materialidade das penas liga-se intimamente a outros artigos de fé, que lhe são corolários; transformada essa crença, as outras se transformarão pela força das coisas e, assim, gradualmente.

- Já temos uma aplicação disto. Há poucos anos ainda, o dogma: Fora da Igreja não há salvação, estava em toda a sua força; o batismo era condição tão imperiosa, que bastava que o filho de um herético o recebesse clandestinamente e à revelia dos pais, para ser salvo, porquanto tudo que não fosse rigorosamente ortodoxo era irremissivelmente condenado. Mas, tendo a razão humana se levantado contra esses bilhões de almas votadas às torturas eternas, quando delas não dependera ser esclarecidas na verdadeira fé; contra essas inúmeras crianças que morrem antes de adquirir a consciência de seus atos e que, nem por isso, são menos danadas, se a negligência ou a fé religiosa de seus pais as privou do batismo, a Igreja viu-se forçada, nesse ponto, a renunciar ao seu absolutismo. Hoje ela diz, ou, pelo menos, diz a maioria de seus teólogos, que essas crianças não são responsáveis pelas faltas dos pais; que a responsabilidade só começa no momento em que, tendo a possibilidade de se esclarecerem, o recusam e, por isto, estas crianças não são danadas por não haverem recebido o batismo; que o mesmo se dá com os selvagens e os idólatras de todas as seitas. Alguns vão mais longe: reconhecem que, pela prática das virtudes cristãs, isto é, da humildade e da caridade, pode-se ser salvo em todas as religiões, porque depende, também, da vontade de um hindu, de um judeu, de um muçulmano, de um protestante, quanto de um católico, viver cristãmente; que aquele que vive assim está na Igreja pelo espírito, mesmo que não o esteja pela forma. Não está aí o princípio: Fora da Igreja não há salvação, ampliado e transformado no Fora da caridade não há salvação? É precisamente o que ensina o Espiritismo e, contudo, é por isto que ele é declarado obra do demônio. Por que essas máximas seriam o sopro do demônio na boca dos espíritas e não na dos ministros da Igreja? Se a ortodoxia da fé está ameaçada, então não o é pelo Espiritismo, mas pela própria Igreja, porque ela sofre, mau grado seu, a pressão da opinião geral e porque, entre seus membros, encontram-se alguns que veem as coisas de mais alto e nos quais a força da lógica leva a melhor a fé cega.

- Talvez parecesse temerário dizer que a Igreja marcha ao encontro do Espiritismo; entretanto, é uma verdade que reconhecerão mais tarde. Avançando para o combater, nem por isso ela deixa, pouco a pouco, de lhe assimilar os princípios, mesmo sem o suspeitar.

- Esta nova maneira de encarar a questão da salvação é grave. Posto acima da forma, o Espírito é um princípio eminentemente revolucionário na ortodoxia. Sendo reconhecida possível a salvação fora da Igreja, a eficácia do batismo é relativa, e não absoluta: torna-se um símbolo. Não trazendo a criança não batizada a pena da negligência nem da má vontade dos pais, em que se torna a pena incorrida por todo o gênero humano pela falta do primeiro homem? Em que se torna também o pecado original, tal qual o entende a Igreja?

- Muitas vezes os maiores efeitos decorrem de pequenas causas. O direito de interpretação e de livre-exame, pueril na aparência, uma vez admitido na questão da materialidade das penas futuras, é um primeiro passo cujas consequências são incalculáveis, porque representa uma brecha na imutabilidade dogmática, e uma pedra arrancada arrasta outras. Forçoso é convir: a posição da Igreja é delicada. Todavia, só há um dos dois partidos a tomar: ficar estacionária, a despeito de tudo, ou ir para frente. Mas, então, não poderá escapar deste dilema: se se imobilizar de modo absoluto nos erros do passado, será infalivelmente superada, como já o é, pelo fluxo das ideias novas, depois isolada e, por fim, desmembrada, como o seria hoje, se tivesse persistido em expulsar do seu seio os que creem no movimento da Terra, ou nos períodos geológicos da Criação; se entrar na via da interpretação dos dogmas transforma-se e aí entra pelo simples fato de renunciar à materialidade das penas e à necessidade absoluta do batismo.



O perigo de uma transformação, aliás, está clara e energicamente formulado na seguinte passagem de um opúsculo publicado pelo padre Marin de Boylesve, da Companhia de Jesus, sob o título de O milagre e o diabo, em resposta à Revue Des Deux Mondes. 

“Há, entre outras, uma questão que, para a religião, é de vida ou de morte: a questão do milagre. A do diabo não o é menos. Tirai o diabo, e o Cristianismo desaparece. Se o diabo não passar de um mito, a queda de Adão e o pecado original entrarão no domínio das fábulas. Por conseguinte a redenção, o batismo, a Igreja, o Cristianismo, numa palavra, não têm mais razão de ser. Por isso a Ciência não poupa esforços para apagar o milagre e suprimir o diabo.”

Desse modo, se a Ciência descobrir uma lei da Natureza, que faça entrar nos fatos naturais um fato que é reputado miraculoso; se provar a anterioridade da raça humana e a multiplicidade de suas origens, todo o edifício se desmorona. Uma religião é muito frágil quando uma descoberta científica lhe é uma questão de vida e morte. Eis uma confissão desastrada. Por nossa conta, estamos longe de partilhar das apreensões do padre Boylesve em relação ao Cristianismo. Dizemos que o Cristianismo, tal qual saiu da boca de Jesus, mas apenas tal qual saiu, é invulnerável, porque é a lei de Deus.

A conclusão é esta: nada de concessão, sob pena de morrer. Esquece o autor de examinar se há mais chances de viver na imobilidade. Nossa opinião é que há menos e que é preferível viver transformado a não viver de modo algum.

Num e noutro caso, a cisão é inevitável. Pode mesmo dizer-se que já existe; a unidade doutrinária está rompida, pois não há acordo perfeito no ensino; uns aprovam o que outros censuram; uns absolvem o que outros condenam. Assim, veem-se fiéis indo de preferência àqueles cujas ideias mais lhes convêm. Dividindo-se os pastores, o rebanho igualmente se divide. Dessa divergência a uma separação, a distância não é grande; um passo a mais e os que estão na vanguarda serão tratados como heréticos pelos que ficaram na retaguarda. Ora, eis o cisma estabelecido; aí está o perigo da imobilidade.

A religião, ou melhor, todas as religiões sofrem, mau grado seu, a influência do movimento progressivo das ideias. Uma necessidade fatal as obriga a se manterem no nível do movimento ascensional, sob pena de soçobrarem. Assim, todas têm sido forçadas, de tempos em tempos, a fazer concessões à Ciência, a minimizar o sentido literal de certas crenças ante a evidência dos fatos. A que repudiasse as descobertas da Ciência e suas consequências, do ponto de vista religioso, mais cedo ou mais tarde perderia a sua autoridade e o seu crédito e aumentaria o número dos incrédulos. Se uma religião qualquer pode ser comprometida pela Ciência, a culpa não é da Ciência, mas da religião fundada sobre dogmas absolutos, em contradição com as leis da Natureza, que são leis divinas. Repudiar a Ciência é, pois, repudiar as leis da Natureza e, por isto mesmo, renegar a obra de Deus; fazê-lo em nome da religião seria pôr Deus em contradição consigo mesmo e fazê-lo dizer: estabeleci leis para reger o mundo; mas não acrediteis nessas leis.

O homem não tem sido capaz, nas diferentes épocas, de conhecer todas as leis da Natureza. A descoberta sucessiva dessas leis constitui o progresso; daí, para as religiões, a necessidade de pôr suas crenças e seus dogmas em harmonia com o progresso, sob pena de receberem o desmentido dos fatos constatados pela Ciência. Só com esta condição uma religião é invulnerável. Em nossa opinião, a religião deveria fazer mais do que se pôr a reboque do progresso, que apenas acompanha constrangida e forçada; deveria ser uma sentinela avançada, porque é honrar a Deus proclamar a grandeza e a sabedoria de suas leis.

A contradição que existe entre certas crenças religiosas e as leis naturais fez a maioria dos incrédulos, cujo número aumenta à medida que se populariza o conhecimento dessas leis. Se fosse impossível o acordo entre a Ciência e a religião, não haveria religião possível. Proclamamos altamente a possibilidade e a necessidade desse acordo, porque, em nosso entender, a Ciência e a religião são irmãs para a maior glória de Deus [ad majorem Dei glorium] e devem completar-se entre si, em vez de se desmentirem reciprocamente. Elas se estenderão as mãos, quando a Ciência não vir na religião nada de incompatível com os fatos demonstrados e a religião não mais tiver que temer a demonstração dos fatos. O Espiritismo, pela revelação das leis que regem as relações entre o mundo visível e o mundo invisível, será o traço de união que lhes permitirá se olhem face a face, uma sem rir, a outra sem tremer. É pela concordância da fé e da razão que diariamente tantos incrédulos são reconduzidos a Deus.

Allan Kardec 
Publicado originalmente na Revista Espírita - Ano VII - Julho de 1864

sábado, 27 de outubro de 2018

O PARTIDO ESPÍRITA


Bem que os espíritas se consideravam uma escola filosófica, mas nunca lhes tinha vindo à mente se julgar um partido. Ora, eis que um belo dia o Moniteur lhes dá esta notícia, que os surpreendeu um pouco. E quem foi que lhes deu esta qualificação? Foi um desses jornalistas inescrupulosos, que lançam epítetos ao acaso, sem lhes compreender o alcance? Não; é um relatório oficial, feito ao primeiro corpo do Estado, ao Senado. Assim, não é provável que, num documento dessa natureza, essa palavra tenha sido pronunciada levianamente. Sem dúvida não foi a benevolência que a ditou, mas foi dita e faz sucesso, porque os jornais não a deixaram cair. Alguns, crendo aí encontrar um agravo a mais contra o Espiritismo, nada tiveram de mais urgente do que estampar em suas colunas o título de: O Partido Espírita.

Assim, esta pobre escolinha, tão ridicularizada, tão humilhada, que caridosamente pretendiam enviar em massa ao hospício; sobre a qual diziam que bastava soprar para que ela desaparecesse; que vinte vezes a declararam morta e para sempre enterrada; à qual não há mais fino escritor hostil que não se tenha gabado de lhe haver dado o golpe de misericórdia, mas concordando, com estupefação, que ela invadia o mundo e todas as classes da sociedade; da qual quiseram, a todo custo, fazer uma religião, gratificando-a com templos e sacerdotes, grandes e pequenos, que ela jamais viu, ei-la de repente transformada em partido. Por esta qualificação, o Sr. Genteur, o relator do Senado, não lhe deu o seu verdadeiro caráter, mas a exaltou; deu-lhe uma posição, um lugar, pondo-a em evidência. Porque a ideia de partido implica a de uma certa força, de uma opinião bastante importante, bastante ativa e bastante espalhada para representar um papel, e com a qual é preciso contar. 

Por sua natureza e por seus princípios, o Espiritismo é essencialmente pacífico; é uma ideia que se infiltra sem ruído, e se encontra numerosos aderentes, é que agrada; jamais fez propaganda nem exibições quaisquer; forte pelas leis naturais, nas quais se apoia, vendo-se crescer sem esforços nem abalos, não vai ao encontro de ninguém, não violenta nenhuma consciência; diz o que é e espera que a ele venham. Todo o ruído que se fez a sua volta é obra de seus adversários; atacaram-no, ele teve que se defender, mas sempre o fez com calma, moderação e só pelo raciocínio; jamais se afastou da dignidade que é própria de toda causa que tem consciência de sua força moral; jamais usou de represálias, pagando injúria por injúria, maus procedimentos por maus procedimentos. Hão de convir que não é este o caráter ordinário dos partidos, turbulentos por natureza, fomentando a agitação e a quem tudo é bom para chegar aos fins. Mas, já que lhe dão este nome, ele o aceita, certo de que não o desonrará por qualquer excesso, pois repudiaria quem quer que dele se prevalecesse para suscitar a menor perturbação. 

O Espiritismo seguia sua rota sem provocar qualquer manifestação pública, mas aproveitando a publicidade que lhe faziam os seus adversários; quanto mais a sua crítica era zombeteira, acerba e virulenta, tanto mais excitava a curiosidade dos que não o conheciam e que, para saberem como proceder diante dessa assim chamada nova excentricidade, iam simplesmente informar-se na fonte, isto é, nas obras especiais; estudavam-no e encontravam outra coisa do que tinham ouvido dizer. É um fato notório que as declamações furibundas, os anátemas e as perseguições ajudaram poderosamente a sua propagação, porque, em vez de lhe desviar a atenção, provocaram o seu exame, ainda que fosse pela atração do fruto proibido. As massas têm sua lógica; elas se dizem que se uma coisa nada fosse, dela não falariam, e medem a sua importância precisamente pela violência dos ataques de que é objeto e pelo pavor que causa aos seus antagonistas. 

Instruídos pela experiência, certos órgãos de publicidade se abstinham de falar dele, bem ou mal, evitando mesmo pronunciar o seu nome, para não lhe dar repercussão, limitando-se, de vez em quando, a lhe lançar alguns ataques violentos às escondidas, quando uma circunstância o punha forçosamente em evidência. Alguns também guardaram silêncio, porque a ideia tinha penetrado em suas fileiras e, com ela, se não talvez a convicção, pelo menos a hesitação. 

Então a imprensa em geral se calava sobre o Espiritismo, quando uma circunstância, que não poderia ser obra do acaso, a obrigou a falar dele. E quem provocou o incidente? Sempre os adversários da ideia que, ainda dessa vez, se equivocaram, produzindo um efeito totalmente contrário ao que esperavam. Para dar mais repercussão ao seu ataque, conduzem-no com pouca habilidade, não no terreno de uma folha sem caráter oficial e cujo número de leitores é limitado, mas por via de petições à própria tribuna do Senado, onde ela é objeto de discussão e de onde saiu a expressão de partido espírita. Ora, graças aos jornais de todas as colorações, obrigados a notificar o debate, a existência desse pequeno partido foi revelada instantaneamente a toda a Europa e além. 

É verdade que um membro da ilustre assembleia disse que não havia senão patetas que fossem espíritas, ao que o presidente respondeu que os tolos também podiam formar um partido. Ninguém ignora que hoje os espíritas se contam por milhões, e que altas notabilidades simpatizam com suas crenças; é, pois, de admirar que um epíteto tão pouco cortês e tão generalizado tenha saído daquele recinto, dirigido a notável parte da população, sem que o autor tenha refletido até onde ele atingia. 

De resto, os próprios jornais se encarregaram de desmentir tal qualificação, certamente não por benevolência, mas, que importa! O jornal Liberté, entre outros, que aparentemente não quer que se seja livre de ser espírita, como se o é de ser judeu, protestante, são-simonista ou livre-pensador, publicou, em seu número de 13 de junho, um artigo assinado por Liévin, do qual eis um extrato:


“O Sr. Genteur, comissário do governo, revelou ao Senado a existência de um partido que não conhecíamos, e que, como os outros, parece contribuir, no limite de suas forças, para abalar as instituições do império.” Sua influência já se fizera sentir o ano passado, e o partido espírita — nome que lhe deu o Sr. Genteur — tinha obtido do Senado, sem dúvida graças à sutileza dos meios de que dispõe, a remessa ao governo da famosa petição de Saint-Etienne, na qual eram denunciadas, como se lembram, não as tendências materialistas da Escola de Medicina, mas as tendências filosóficas da biblioteca da comuna. Até aqui tínhamos atribuído ao partido da intolerância a honra desse sucesso, e o considerávamos por si como uma consolação por seu último revés; mas parece que nos tínhamos enganado e que a petição de Saint-Etienne não passava de uma manobra desse partido espírita, cujo poder oculto parece querer exercer-se mais particularmente em detrimento das bibliotecas. 

“Assim, segunda-feira o Senado ocupava-se de uma nova petição, na qual o partido espírita, levantando ainda a cabeça, denunciava as tendências da biblioteca de Oullins (Rhône). Mas desta vez a venerável assembleia, posta em guarda pelas revelações do Sr. Genteur, frustrou os cálculos dos espíritas, por uma unânime ordem do dia. Apenas o Sr. Nisard se deixou apanhar mais ou menos por esta astúcia de guerra, e de boa-fé estendeu a mão a esses pérfidos inimigos. Deu-lhes o apoio de um parecer em que, por sua vez, assinalava os perigos dos maus livros. Felizmente o equívoco do honrado senador não foi partilhado e os espíritas, arrependidos e confusos, foram reconduzidos como mereciam.”

Um outro jornal — Revue politique hebdomadaire — de 13 de junho, assim começa um artigo sobre o mesmo assunto:

“Ainda não conhecíamos todos os nossos perigos. Caso se acredite no Constitutionnel, não eram bastantes os partidos legitimista, orleanista, republicano, socialista, comunista e o partido vermelho, sem contar o partido liberal, que os resume todos? Era mesmo sob o segundo império, cuja pretensão é dissolver todos os partidos, que devia nascer um novo partido, crescer e ameaçar a sociedade francesa, o partido espírita? Sim, o partido espírita! Foi o Sr. Genteur, Conselheiro de Estado, quem o descobriu e que o denunciou em pleno Senado.”

Dificilmente se compreende que um partido que só se componha de tolos possa fazer o Estado correr sérios perigos; apavorar-se com isto seria fazer crer que se tem medo dos bobos. Soltando esse grito de alarme à face do mundo, prova-se que o partido espírita é alguma coisa. Não tendo podido abafá-lo sob o ridículo, tentam apresentá-lo como um perigo para a tranquilidade pública. Ora, qual será o resultado inevitável desta nova tática? Um exame tanto mais sério e mais profundo mais terá exaltado o seu perigo; quererão conhecer as doutrinas deste partido, seus princípios, sua palavra de ordem, suas filiações. Se o ridículo lançado sobre o Espiritismo, como crença, despertou curiosidade, será bem outra coisa quando for apresentado como um partido temível; cada um está interessado em saber o que ele quer, para onde conduz: é tudo o que ele pede; agindo às claras, não tendo nenhuma instrução secreta, fora do que é publicado para uso de tudo o mundo, ele não teme nenhuma investigação, certo que está, ao contrário, de ganhar por ser conhecido e que, quem quer que o perscrute com imparcialidade, verá em seu código moral uma poderosa garantia da ordem e da segurança. Um partido, pois é um partido, que inscreve em sua bandeira: Fora da caridade não há salvação, indica suas tendências com bastante clareza, para que ninguém tenha razão para o temer. Aliás, a autoridade, cuja vigilância é conhecida, não pode ignorar os princípios de uma doutrina que não se esconde. Não falta gente para lhe dar conta do que se diz e se faz nas reuniões espíritas, e ela bem saberia chamar à ordem as que dela se afastassem. 

É de admirar que homens que fazem profissão de liberalismo, que reclamam com insistência a liberdade, que a querem absoluta para as suas ideias, seus escritos, suas reuniões, que estigmatizam todos os atos de intolerância, queiram proscrevê-la para o Espiritismo.

Mas, vede a que inconsequências conduz a cegueira! 

O debate que ocorreu no Senado foi provocado por duas petições: uma, do ano passado, contra a biblioteca de Saint-Etienne; outra deste ano, contra a biblioteca de Oullins, assinadas por alguns habitantes daquelas cidades, e que reclamavam contra a introdução, naquelas bibliotecas, de certas obras, em cujo número figuravam as obras espíritas. 

Pois bem! o autor do artigo do jornal Liberté, que sem dúvida examinou a questão um tanto levianamente, imagina que a reclamação emana do partido espírita e conclui que este recebeu uma pancada na cabeça pela ordem do dia pronunciada contra a petição de Ouillins. Eis, pois, esse partido tão perigoso, tão facilmente derrubado, e que peticiona para pedir a exclusão de suas próprias obras! Então seria verdadeiramente o partido dos tolos. Aliás, este estranho equívoco nada tem de surpreendente, visto que o autor declara, de início, que não conhecia esse partido, o que não o impede de o declarar capaz de abalar as instituições do império.

Longe de se inquietarem com esses incidentes, os espíritas devem regozijar-se; esta manifestação hostil não podia produzir-se em circunstâncias mais favoráveis, e por certo a Doutrina receberá um novo e salutar impulso, como tem acontecido em todos os levantes de que ela foi objeto. Quanto mais esses ataques repercutirem, mais proveitosos serão. Dia virá em que se transmutarão em aprovações abertas.

O jornal Siècle, de 18 de junho, também publicou seu artigo sobre o partido espírita. Todos aí notarão um espírito de moderação, que contrasta com os dois outros que mencionamos; nós o reproduzimos integralmente:

“Quem disse que não há nada de novo debaixo do sol? O céptico que assim falava não suspeitava que um dia a imaginação de um Conselheiro de Estado faria, em pleno Senado, a descoberta do partido espírita. Já contávamos alguns partidos na França, e Deus sabe se os ministros oradores cometem erro ao enumerar os perigos que podem causar esta divisão dos espíritos! Há o partido legitimista, o partido orleanista, o partido republicano, o partido socialista, o partido comunista, o partido clerical, etc., etc.

“A lista não pareceu bastante longa ao Sr. Genteur. Ele acaba de denunciar à vigilância dos veneráveis pais da política, que têm assento no Palácio do Luxemburgo, a existência do partido espírita. A esta revelação inesperada, um frisson percorreu a assembleia. Os defensores das duas morais, com o Sr. Nisard à frente, estremeceram.

“Quê! A despeito do zelo desses inumeráveis funcionários, o império francês está ameaçado por um novo partido? – Na verdade, é para desesperar da ordem pública. Como este inimigo, invisível até agora ao próprio Sr. Genteur, pôde ocultar-se a todas as vistas? Há nisto um mistério, que o Sr. Conselheiro de Estado, se o penetrar, bem que nos poderá ajudar a compreender. Pessoas oficialmente informadas afirmam que o partido espírita escondia o exército de seus representantes — os Espíritos batedores — atrás dos livros das bibliotecas de Saint-Etienne e de Oullins.

“Eis-nos, pois, de volta aos belos tempos das histórias da carochinha, das mesas girantes e das indiscretas mesinhas de pés-de-galo!

“Embora o Espiritismo e seu primeiro apóstolo, o Sr. Delage — o mais suave dos pregadores – não tenham ainda convencido muita gente, contudo chegaram a constituir um partido. Isto pelo menos se diz no Senado, e não seremos nós que alguma vez nos permitiremos suspeitar da exatidão do que se afirma num lugar tão importante.

“A influência oculta do partido recentemente assinalado se fez sentir até na última discussão do Senado, onde o Sr. Désiré Nisard, um dos maiorais, mostrou-se forte contra os reacionários. Um tal papel cabia de direito ao homem que foi, desde a sua saída da escola normal, um dos agentes mais ativos das ideias retrógradas.

“Depois disto, é para admirar ouvir o honrado senador invocar o arbítrio para justificar as medidas restritivas tomadas a propósito da escolha dos livros da biblioteca de Oullins? “Esse estabelecimentos populares, diz o Sr. Nisard, são fundados por associações; encontram-se, pois, sob o disposto do artigo 291 do Código Penal e, por consequência, à mercê do Ministro do Interior. Ele usou, usa e usará desta ditadura.”

“Deixamos ao partido espírita e ao seu Cristovão Colombo, o Sr. Genteur, Conselheiro de Estado, o cuidado de interrogar os Espíritos reveladores, a fim de que nos digam o que o Senado espera obter impedindo os cidadãos de organizarem livremente as bibliotecas populares, como se pratica na Inglaterra?” (Anatole de la Forge)

Publicado por Allan Kardec na Revista Espírita em julho de 1868. 





Um dos nossos correspondentes de Sens nos transmitiu as observações seguintes, sobre a qualificação de partido, dada ao Espiritismo, a propósito de nosso artigo do mês de julho sobre o mesmo assunto.


“Num artigo do último número da Revista, intitulado: O partido espírita, dizeis que, uma vez que assim nomeiam o Espiritismo, ele o aceita. Mas deve aceitá-lo? Isto talvez mereça um exame sério.

“Todas as religiões, assim como o Espiritismo, não ensinam que todos os homens são irmãos, que são todos filhos de um pai comum, que é Deus? Ora, deveria haver partidos entre os filhos de Deus? Não é uma ofensa ao Criador? porque é próprio dos partidos armar os homens uns contra os outros; e pode a imaginação conceber maior crime que armar os filhos de Deus uns contra os outros?

“Tais são, senhor, as reflexões que julguei dever submeter à vossa apreciação. Talvez fosse oportuno submetê-las, também, à dos benevolentes Espíritos que guiam os trabalhos do Espiritismo, a fim de conhecer a sua opinião. Essa questão talvez seja mais grave do que parece à primeira vista. De minha parte, repugnar-me-ia pertencer a um partido. Creio que o Espiritismo deve considerar os partidos como uma ofensa a Deus.”

Estamos perfeitamente de acordo com o nosso honrado correspondente, cuja intenção só podemos louvar. Contudo, cremos que seus escrúpulos são um pouco exagerados no caso de que se trata, sem dúvida por não ter examinado suficientemente a questão.

A palavra partido implica, por sua etimologia, a ideia de divisão, de cisão e, por conseguinte, a de luta, de agressão, de violência, de intolerância; de ódio, de animosidade, de vingança, coisas todas contrárias ao espírito do Espiritismo. Não tendo o Espiritismo nenhum desses caracteres, pois que os repudia, por suas tendências mesmas, não é um partido na acepção vulgar da palavra, e nosso correspondente tem muitíssima razão para repelir a qualificação deste ponto de vista.

Mas ao nome de partido se liga também a ideia de uma força, física ou moral, bastante forte para pesar na balança, bastante preponderante para que se possa contar com ela; aplicando-o ao Espiritismo, pouco ou nada conhecido, é dar-lhe um ato de notória existência, uma posição entre as opiniões, constatar a sua importância e, como consequência, provocar o seu exame, o que ele não cessa de pedir. Sob esse aspecto, devia repudiar tanto menos essa qualificação, embora fazendo reservas sobre o sentido a ligar a isto, quanto, partida do alto, ela dava um desmentido oficial aos que pretendem que o Espiritismo seja um mito sem consistência, que se gabavam de o haver enterrado vinte vezes. Foi possível julgar do alcance desta palavra pelo ardor desajeitado com o qual certos órgãos da imprensa dela se apoderam para transformá-la num espantalho.

É por esta consideração, e neste sentido, que dissemos que o Espiritismo aceita o título de partido, já que lho dão, porque era engrandecê-lo aos olhos do público; mas não tivemos em vista fazê-lo perder sua qualidade essencial, a de doutrina filosófica moralizadora, que faz sua glória e a sua força. Longe de nós, pois, o pensamento de transformar em partidários os adeptos de uma doutrina de paz, de tolerância, de caridade e de fraternidade. A palavra partido, aliás, nem sempre implica a ideia de luta, de sentimentos hostis; não se diz: o partido da paz? o partido das pessoas honestas? O Espiritismo já provou, e provará sempre, que pertence a esta categoria.

Quanto ao mais, faça o que fizer, o Espiritismo não pode deixar de ser um partido. Com efeito, que é um partido, abstração feita da ideia de luta? é uma opinião que não é partilhada senão por uma parte da população. Mas essa qualificação só é dada às opiniões que contam um número de aderentes bastante considerável para chamar a atenção e representar um papel. Ora, não sendo ainda de todos, a opinião espírita é, necessariamente, um partido em relação às opiniões contrárias, que o combatem, até que os tenha unido a todos. Em virtude de seus princípios, ele não é agressivo; não se impõe; não subjuga; não pede para si senão a liberdade de pensar à sua maneira, seja; mas, desde que é atacado, tratado como pária, deve defender-se e reivindicar para si o que é de direito comum; ele o deve, é seu dever, sob pena de ser acusado de renegar sua causa, que é a de todos os seus irmãos em crença, que não poderia abandonar sem cobardia. Entra, pois, forçosamente na luta, por maior repugnância que experimente; não é inimigo de ninguém, é verdade, mas tem inimigos que procuram esmagá-lo; é por sua firmeza, por sua perseverança e por sua coragem que se lhes imporá; suas armas são completamente diversas das dos adversários, também é verdade; mas não deixa de ser para eles, e apesar deles, um partido, pois não lhe teriam dado este título se não o tivessem julgado bastante forte para os contrabalançar.

Tais são os motivos pelos quais julgamos que o Espiritismo podia aceitar a qualificação de partido, que lhe era dado por seus antagonistas, sem que o tenha tomado por si mesmo porque era aceitar o repto que lhe era lançado. Pensamos que o podia, sem repudiar os seus princípios.

Publicado por Allan Kardec na Revista Espírita em agosto de 1868