Introdução

Há muito o que ser aprendido. Há muito o que podemos extrair do que vemos, tocamos, ouvimos, e acima de tudo, sentimos. Nossa sabedoria vem dos retalhos que vamos colhendo ao longo de nossa evolução, que os leva a formar a colcha que somos. Esse espaço é para que eu possa compartilhar das luzes que formam o que Eu tenho sido!!!

segunda-feira, 16 de maio de 2016

A LIÇÃO A NICODEMOS


Em face dos novos ensinamentos de Jesus, todos os fariseus do templo se tomavam de inexcedíveis cuidados, pelo seu extremado apego aos textos antigos. O Mestre, porém, nunca perdeu ensejo de esclarecer as situações mais difíceis com a luz da verdade que a sua palavra divina trazia ao pensamento do mundo. Grande número de doutores não conseguia ocultar o seu descontentamento, porque, não obstante suas atividades derrotistas, continuavam as ações generosas de Jesus beneficiando os aflitos e os sofredores. Discutiam-se os novos princípios, no grande templo de Jerusalém, nas suas praças públicas e nas sinagogas. Os mais humildes e pobres viam no Messias o emissário de Deus, cujas mãos repartiam em abundância os bens da paz e da consolação. As personalidades importantes temiam-no.

É que o profeta não se deixava seduzir pelas grandes promessas que lhe faziam com referência ao seu futuro material. Jamais temperava a sua palavra de verdade com as conveniências do comodismo da época. Apesar de magnânimo para com todas as faltas alheias, combatia o mal com tão intenso ardor, que para logo se fazia objeto de hostilidade para todas as intenções inconfessáveis. Mormente em Jerusalém que, com o seu cosmopolitismo, era um expressivo retrato do mundo, as idéias do Senhor acendiam as mais apaixonadas discussões. Eram populares que se entregavam à apologia franca da doutrina de Jesus, servos que o sentiam com todo o calor do coração reconhecido, sacerdotes que o combatiam abertamente, convencionalistas que não o toleravam, indivíduos abastados que se insurgiam contra os seus ensinos.  

Todavia, sem embargo das dissensões naturais que precedem o estabelecimento definitivo das idéias novas, alguns espíritos acompanhavam o Messias, tomados de vivo interesse pelos seus elevados princípios. Entre estes, figurava Nicodemos, fariseu notável pelo coração bem formado e pelos dotes da inteligência. Assim, uma noite, ao cabo de grandes preocupações e longos raciocínios, procurou a Jesus, em particular, seduzido pela magnanimidade de suas ações e pela grandeza de sua doutrina salvadora. O Messias estava acompanhado apenas de dois dos seus discípulos e recebeu a visita com a sua bondade costumeira.  

Após a saudação habitual e revelando as suas ânsias de conhecimento, depois de fundas meditações, Nicodemos dirigiu-se-lhe respeitoso:

- Mestre, bem sabemos que vindes de Deus, pois somente com a luz da assistência divina poderíeis realizar o que tendes efetuado, mostrando o sinal do céu em vossas mãos. Tenho empregado a minha existência em interpretar a lei, mas desejava receber a vossa palavra sobre os recursos de que deverei lançar mão para conhecer o Reino de Deus!  

O Mestre sorriu bondosamente e esclareceu:

- Primeiro que tudo, Nicodemos, não basta que tenhas vivido a interpretar a lei. Antes de raciocinar sobre as suas disposições, deverias ter-lhe sentido os textos.  Mas, em verdade devo dizer-te que ninguém conhecerá o Reino do Céu, sem nascer de novo. 

- Como pode um homem nascer de novo, sendo velho? - interrogou o fariseu, altamente surpreendido.

- Poderá, porventura, regressar ao ventre de sua mãe? 

O Messias fixou nele os olhos calmos, consciente da gravidade do assunto em foco, e acrescentou:

- Em verdade, reafirmo-te ser indispensável que o homem nasça e renasça, para conhecer plenamente a luz do reino!... 

- Entretanto, como pode isso ser? - perguntou Nicodemos, perturbado.

- És mestre em Israel e ignoras estas coisas? - inquiriu Jesus, como que surpreendido.

- É natural que cada um somente testifique daquilo que saiba; porém, precisamos considerar que tu ensinas. Apesar disso, não aceitas os nossos testemunhos. Se falando eu de coisas terrenas sentes dificuldades em compreendê-las com os teus raciocínios sobre a lei, como poderás aceitar as minhas afirmativas quando eu disser das coisas celestiais? Seria loucura destinar os alimentos apropriados a um velho para o organismo frágil de uma criança.  

Extremamente confundido, retirou-se o fariseu, ficando André e Tiago empenhados em obter do Messias o necessário esclarecimento, acerca daquela lição nova.


Jerusalém quase dormia sob o véu espesso da noite alta. Silêncio profundo se fizera sobre a cidade. Jesus, no entanto, e aqueles dois discípulos continuavam presos à conversação particular que haviam entabulado. Desejavam eles ardentemente penetrar o sentido oculto das palavras do Mestre. Como seria possível aquele renascimento? Não obstante os seus conhecimentos, também partilhavam da perplexidade que levara Nicodemos a se retirar fundamente surpreendido.

- Por que tamanha admiração, em face destas verdades? perguntou- lhes Jesus, bondosamente. - As árvores não renascem depois de podadas? Com respeito aos homens, o processo é diferente, mas o espírito de renovação é sempre o mesmo. O corpo é uma veste. O homem é seu dono. Toda roupagem material acaba rota, porém, o homem, que é filho de Deus, encontra sempre em seu amor os elementos necessários à mudança do vestuário. A morte do corpo é essa mudança indispensável, porque a alma caminhará sempre, através de outras experiências, até que consiga a imprescindível provisão de luz para a estrada definitiva no Reino de Deus, com toda a perfeição conquistada ao longo dos rudes caminhos.

André sentiu que uma nova compreensão lhe felicitava o espírito simples e perguntou: 

- Mestre, já que o corpo é como que à roupa material das almas, por que não somos todos iguais no mundo? Vejo belos jovens, junto de aleijados e paralíticos... 

- Acaso não tenho ensinado - disse Jesus - que tem de chorar todo aquele que se transforma em instrumento de escândalo? Cada alma conduz consigo mesma o inferno ou o céu que edificou no âmago da consciência. Seria justo conceder-se uma segunda veste mais perfeita e mais bela ao espírito rebelde que estragou a primeira? Que diríamos da sabedoria de Nosso Pai, se facultasse as possibilidades mais preciosas aos que as utilizaram na véspera para o roubo, o assassínio, a destruição? Os que abusaram da túnica da riqueza vestirão depois as dos fâmulos e escravos mais humildes, como as mãos que feriram podem vir a ser cortadas.

- Senhor, compreendo agora o mecanismo do resgate - murmurou Tiago, externando a alegria do seu entendimento. - Mas, observo que, desse modo, o mundo  precisará sempre do clima do escândalo e do sofrimento, desde que o devedor, para saldar seu débito, não poderá fazê-lo sem que outro lhe tome o lugar com a mesma dívida.  

O Mestre apreendeu a amplitude da objeção e esclareceu os discípulos, perguntando: 

- Dentro da lei de Moisés, como se verifica o processo da redenção?

Tiago meditou um instante e respondeu: 

- Também na lei está escrito que o homem pagará 'olho por olho, dente por dente". 

- Também tu, Tiago, estás procedendo como Nico- demos - replicou Jesus com generoso sorriso. - Como todos os homens, aliás, tens raciocinado, mas não tens sentido. Ainda não ponderaste, talvez, que o primeiro mandamento da lei é uma determinação de amor. Acima do "não adulterarás", do "não cobiçarás", está o "amar a Deus sobre todas as coisas, de todo o coração e de todo o entendimento". Como poderá alguém amar o Pai, aborrecendo-lhe a obra? Contudo, não estranho a exigüidade de visão espiritual com que examinaste o texto dos profetas. Todas as criaturas hão feito o mesmo. Investigando as revelações do céu com o egoísmo que lhes é próprio, organizaram a justiça como o edifício mais alto do idealismo humano. E, entretanto, coloco o amor acima da justiça do mundo e tenho ensinado que só ele cobre a multidão dos pecados. Se nos prendemos à lei de talião, somos obrigados a reconhecer que onde existe um assassino haverá, mais tarde, um homem que necessita ser assassinado; com a lei do amor, porém, compreendemos que o verdugo e a vítima são dois irmãos, filhos de um mesmo Pai. Basta que ambos sintam isso para que a fraternidade divina afaste os fantasmas do escândalo e do sofrimento. 


Ante as elucidações do Mestre, os dois discípulos estavam maravilhados. Aquela lição profunda esclarecia-os para sempre.  Tiago, então, aproximou-se e sugeriu a Jesus que proclamasse aquelas verdades novas na pregação do dia seguinte. O Mestre dirigiu-lhe um olhar de admiração e interrogou: 

- Será que não compreendeste? Pois, se um doutor da lei saiu daqui sem que eu lhe pudesse explicar toda a verdade, como queres que proceda de modo contrário, para com a compreensão simplista do espírito popular? Alguém constrói uma casa iniciando pelo teto o trabalho? Além disso, mandarei mais tarde o Consolador, a fim de esclarecer e dilatar os meus ensinos.

Eminentemente impressionados, André e Tiago calaram as derradeiras interrogações. Aquela palestra particular, entre o Senhor e os discípulos, permaneceria guardada na sombra leve da noite em Jerusalém; mas, a lição a Nicodemos estava dada. A lei da  reencarnação estava proclamada para sempre, no Evangelho do Reino.

Humberto de Campos (Espírito) através de Francisco Cândido Xavier 
no livro: Boa Nova, capítulo 14.  

SIGNIFICADO DO SER EXISTENCIAL


Objetivos da vida humana. Conflitos pessoais. Mitos, ilusão e realidade.  

Objetivos da vida humana  

Ninguém se encontraria reencarnado na Terra, não tivesse a existência física uma finalidade superior. O ser é produto de um largo processo de desenvolvimento dos infinitos valores que lhe dormem em latência, aguardando os meios propiciatórios à sua manifestação. Etapa a etapa, passo a passo, são realizados progressos que se fixam mediante os hábitos que se incorporam à individualidade, que resulta do somatório das vivências das multifárias reencarnações. Erros e acertos constituem recursos de desdobramento da consciência para os logros mais grandiosos da sua destinação, que é a de natureza cósmica, quando em perfeita sintonia com os planos e programas do Universo. Passando o princípio inteligente por diversos patamares do processo da evolução, fixa todas as experiências que lhe constituem patrimônio de crescimento mental e moral, atravessando os períodos mais difíceis e laboriosos da fase inicial, para alcançar os níveis de lucidez que o capacitam à compreensão e vivência dos Soberanos Códigos que regem o Cosmo. No período do pensamento primário tudo é feito mediante automatismos dos instintos, preservando os fenômenos inevitáveis da vida biológica, de modo a poder desenvolver as faculdades do discernimento sob a força do trabalho brutal, suavizando a própria faina com o esforço das conquistas operadas. Nesse ser primitivo as esperanças cantam as expectativas das glórias futuras. Ele olha o zimbório estrelado e não entende as lanternas mágicas rutilando ao longe, que lhe parece próximo. A saga da evolução é longa e, por vezes, dolorosa, deixando-lhe sulcos profundos, que noutras fases, sob estímulos inesperados dos sofrimentos, ressurgem como angústia ou violência, desespero ou amargura que não consegue explicar. Constituirlhe-ão arquétipos a exercerem grande influência no seu comportamento psicológico durante várias existências corporais, assinalando-lhe a marcha ascensional. Mesclam-se, em cada personalidade proveniente das reencarnações, dando surgimento a algumas personificações parasitárias e perturbadoras, que constituem o capítulo das personalidades múltiplas, em forma de comportamentos alienados. A sua evolução psicológica é, também, a mesma antropológica, especialmente nos passos primeiros. Avançando lenta e seguramente, aprendendo com as forças vivas do Universo, entesoura os recursos preciosos do conhecimento que lhe custou sacrifícios inumeráveis no longo curso das experiências, e agora se interroga a respeito da finalidade de todo esse curso de crescimento, descobrindo, por fim, que se encontra no limiar das realizações realmente plenificadoras e profundas, porque são as que significam libertação dos atavismos remanescentes, ampliando as aspirações na área das emoções mais nobres, portanto, menos afligentes, aquelas que não deixam as sequelas do cansaço, da amargura ou do desânimo. A criatura está fadada à felicidade, à conquista do Infinito, além das expressões do espaço. A dor que hoje a comprime é camartelo de estimulação para que saia da situação que propicia esse desagradável fator de perturbação. Compreendendo, por fim, a grandeza do amor, alça--se às cumeadas do trabalho pelo bem geral, empenhando--se na conquista de si mesma, do seu próximo, da vida em geral. Tudo quanto pulsa e vibra interessa-lhe, retira-a da pequenez e conduz à grandeza, trabalhando-lhe o íntimo que se expande e se harmoniza em um hino de confraternização com tudo e com todos, passando a fazer parte vibrante da vida. Esse significado existencial somente é descoberto quando atinge um grau de elevada percepção da realidade, que transcende o limite da forma física, transitória e experimental que, todavia, pode e deve ser cultivada com alegria e saúde integral. Não se creia, portanto, equivocadamente, que a finalidade primeira da conjuntura existencial seja viver bem, no sentido de acumular recursos, fruir comodidades, gozar sensações que se renovam e exaurem, alcançando o pódio da glória competitiva e todos esses equivalentes anelos do pensamento mágico, partindo para as aspirações fenomênicas e miraculosas dos privilégios e das regalias que não harmonizam o indivíduo com ele mesmo. Certamente, na pauta dos objetivos e do sentido existencial, constam as realizações sociais, econômicas, artísticas, culturais, religiosas, todas aquelas que fazem parte do mundo de relações interpessoais. Entretanto, não são exclusivas - metas finais das buscas e das lutas - desde que o ser transpõe os umbrais do túmulo e continua a viver, levando os seus programas de elevação gravados no imo profundo. Lutar sem fadigas exaustivas por conquistar-se, su-perando-se quanto possível, enfrentando os desafios com alegria e compreendendo que são os degraus de ascensão diante dos seus passos - eis como incorporará ao cotidiano os objetivos essenciais do seu aprimoramento físico, emocional e mental.               
    
Conflitos pessoais 

Nesse empreendimento de ascensão inevitável, o ser depara-se com as construções do seu passado nele insculpidas, que se exteriorizam amiúde, afligindo-o, limitando-o. Apresentam-se, essas fixações, como conflitos nas paisagens íntimas, ameaçando a sua realização, a alegria do trabalho, a harmonia da convivência com outras pessoas, transformando-se com facilidade em complexos perturbadores na área da emoção e do comportamento. Não se podem negar os fatores responsáveis por tais distúrbios, a começar pelos comportamentos da gestante, afetando o ser na vida intrauterina e culminando com a convivência em família, particularmente com pais dominadores, mães castradoras, neuróticas, que transferem as suas inseguranças e todos os outros conflitos para os filhos em formação, que se tornam fragilizados sob a alta carga de tensões que se veem obrigados a suportar. Por outro lado, as pressões sociais e econômicas, culturais e educacionais se transformam em gigantes apavorantes que passam a perseguir com insistência o educando, que absorve esses fantasmas e não os digere vindo a temê-los, a detestá-los e a conduzi-los por toda a existência, quando não recebeu conveniente tratamento. E certo que o Espírito renasce onde se lhe torna melhor para o processo da evolução. Como, todavia, ninguém vem à Terra para sofrer, senão para reparar, adquirir novas experiências, desenvolver aptidões, crescer interiormente, todos esses empecilhos que defronta fazem parte da sua proposta de educação, devendo equipar-se de valores e de discernimento para superá-los e, livre de toda constrição restritiva à sua liberdade, avançar com desembaraço na busca da sua afirmação plenificadora.      
    
Esta é, sobretudo, a função da Psicologia, ao penetrar o âmago do ser, para o desalgemar dos conflitos e heranças infelizes que lhe pesam na economia emocional. Sigmund Freud, o insigne Pai da Psicanálise, afirmava com razão muito pessoal que, na raiz de todo conflito neurótico, sempre existe um problema da libido. Não se pode descartar essa manifestação recalcada da libido, nos diversos comportamentos perturbadores que afetam a criatura humana. Isso porque, remanescente das suas experiências coevas, o ser renasce sob as injunções das condutas pelas quais transitou. No complexo de Edipo, por exemplo, detectamos uma herança reencarnacionista, tendo em vista que a mãe e o filho apaixonados de hoje foram marido e mulher de antes, em cujo relacionamento naufragaram desastradamente. No complexo de Eletra, deparamos uma vivência ancestral entre esposos ou amantes, e que as Soberanas Leis da Vida voltam a reunir em outra condição de afetividade, a fim de que sejam superados os vínculos anteriores de conduta sexual aflitiva. Esses amantes reencontrando-se e guardando no inconsciente, isto é, no Espírito, as reminiscências das atividades vividas sob tormentos, sentem os apelos de ontem reaparecerem vibrantes, e, não possuindo uma forte conduta moral, derrapam nas relações incestuosas, portanto infelizes. Mesmo nos complexos de inferioridade como nos de superioridade, ressurge o passado espiritual dominador, provocando os estados mórbidos, que levam ao desequilíbrio, a um passo da alienação mental. Não deixamos de ter em vista os fatores familiares, educacionais, sociais, que pesam na manifestação dessas perturbações, constituindo-se estímulos ao seu surgimento, piorando as tendências inquietadoras, sulcando a psique de forma poderosa.         
Nos quadros fóbicos, podemos encontrar Espíritos que conduzem, no íntimo, pavores que sobreviveram ao fenômeno biológico da reencarnação, cicatrizes do mundo espiritual inferior por onde transitaram, ou do despertamento na sepultura, em face das mortes aparentes, havendo desencarnado, em consequência, por falta de oxigênio, e que reexperimentam o tormento começa na claustrofobia. Outrossim, as recordações de cenas apavorantes de que participaram na multidão como vítimas ou desencadeadores, revivem-nas, inconscientemente, na agorafobia. Nas psicoses depressivas de vária manifestação, convém lembrar a presença da consciência de culpa, que preexiste ao corpo, portanto, à formação psicológica atual, produzindo mecanismos de fuga à ação dinâmica, sob o império, não poucas vezes, de enzimas neuroniais responsáveis pelo desajuste, como de fatores causais próximos e mesmo de obsessões espirituais, que se fazem atuantes no comércio mental com as criaturas humanas. Nesse capítulo, as dolorosas obsessões compulsivas têm suas raízes etiopatogênicas em graves condutas do Espírito nas existências pretéritas, assinaladas pelo descaso à dignidade humana, por desrespeito às leis constituídas... Quando a educação tiver como objetivo a construção do homem integral, os fatores de perturbação cederão lugar a outros tipos de estímulos, que são os edificadores da esperança, mantenedores das aspirações elevadas, no esforço para a superação das heranças doentias que cada um traz em si mesmo. 

Mitos, Ilusão e Realidade.  

Quando a criança não consegue amadurecer psicologicamente após o período de desenvolvimento do seu pensamento mágico, transfere aquelas construções para todas as fases da sua existência física, mantendo-se um indivíduo mendaz, que se refugia na criatividade imaginativa para liberar-se da responsabilidade dos atos imaturos. Essa conduta igualmente tem suas raízes profundas no arquétipo herdado do homem ancestral que viveu o processo de evolução pensante e deixou fixadas no inconsciente coletivo as marcas do trânsito por aquele período. Entretanto, a conduta de pais dominadores, que se sentem compensados pelo amor em carência, com a bajulação e a sujeição da prole, impõe que a fase mítica permaneça na estrutura da personalidade infantil, vendo, inclusive, nos filhos, mesmo adultos, os seres em formação que gostariam de continuar dirigindo. Trata-se de um conflito que se transfere de uma para outra geração, cada vez com resultados mais danosos. A falta de honestidade do adulto para autoanalisar-se e assumir a coragem de libertar-se de todos os impedimentos e amarras, que o detém nas fixações do passado, responde por condutas de tal natureza. A sua insegurança íntima produz o ditador que se cerca de leis injustas e atos arbitrários, de guardas ferozes e cuidados especiais, intimidando, destruindo e fazendo-se detestado como forma de sentir-se realizado. No ódio que lhe votam as vítimas, ele sente-se homenageado, porque temido, transferindo os seus medos em relação a tudo e todos para os demais em relação à sua pessoa. Os mitos, que remanescem do período infantil ou da falta de maturidade do adulto sob a ação de arquétipos específicos, trazem de volta à consideração os velhos conceitos em torno de deuses, semideuses, magos, fadas, fantasmas, crendices, como formas de aguardar proteção em deidades superiores, que chegarão magicamente para o salvar da maldade humana, da sociedade injusta, dos amigos infiéis...  

O pavor que lhe infundia o pai, ao alcançar a idade da razão, transfere-o para Deus, que reflete a imagem detestada do genitor físico, ou para os deuses mais terríveis que a imaginação concebeu nos períodos anteriores da cultura mais primitiva. A mãe arbitrária construirá no inconsciente a bruxa má, invejosa, que será vencida pela interferência da fada madrinha.  
Os conflitos da afetividade no lar inspirarão a confiança em um amor romântico, estilo medieval, que virá arrancar a vítima do encarceramento emocional em que sofre solidão e desconforto. O mestre mesquinho e perverso que mais se compraz em intimidar que em ensinar, estrutura, no psiquismo do educando, o invasor sem alma que lhe penetra o castelo existencial paia destruir, sob pretexto de amizade e ajuda. Soterrados, mas não mortos, os mitos estão nos alicerces do inconsciente, sempre prontos a tomarem de assalto a casa mental e o campo psicológico, levando o indivíduo a fugas ocasionais por intermédio dos sonhos acordados, da fertilidade imaginativa. A vida, para essas pessoas, passa a ter o seu lado de realidade e pleno, embora todas as suas aspirações estejam centradas no mundo do encantamento, certas de que, em um momento ou outro tudo se alterará e viverão felizes para sempre. Essa ilusão de que a vida física é o todo, a proposta essencial do existir, produz terríveis conflitos, porque, confiando com total dedicação no mundo material, as próprias injunções do desenvolvimento do ser apresentam-lhe a fragilidade estrutural em que se apoia, e isso produz-lhe desencanto, dor e desfalecimento nos ideais. A crença firmada na ilusão de que tudo é duradouro, senão eterno, no mundo terrestre, propicia o choque com a realidade dos fenômenos das transformações incessantes, que ocorrem por força da própria transitoriedade da matéria e de tudo quanto ela se reveste. O ser profundo é resistente às situações da mudança das ocorrências humanas ou fenomênicas do habitai, construído de energia pensante, que independe dos fatores transitórios do corpo somático, a ele preexistente e sobrevivente, portanto uma realidade que vence tempo e espaço, avançando sem cessar. 

Os fatos que o demonstram resistem às teses que se lhe opõem e apresentam os resultados filosóficos e psicológicos dos seus conteúdos de segurança. Transitar da ilusão para a realidade é imperativo para a aquisição da harmonia pessoal, da felicidade íntima. Buscar o apoio do conhecimento, a fim de discernir o que é ilusório e o que é verdadeiro, o que tem estrutura resistente ao tempo e às transformações culturais e aquilo que apenas engoda, oferece ensejo de amadurecimento psicológico, de realização interior. Com essa determinação, os apegos perturbadores, os ciúmes injustificáveis, as angústias da ansiedade sem sentido, as decepções infantis, ante os acontecimentos normais do desenvolvimento dos fenômenos, cedem lugar à libertação de pessoas, coisas e prazeres, que, embora sejam motivação para viver, não constituem a única razão da vida. São realidades inalienáveis as ocorrências do nascimento e da morte, da velhice e das doenças, porque fazem parte dos mecanismos da vida física. Tornar mais aprazíveis os dias vividos no corpo, eliminar os fatores de perturbação que tornam a existência insuportável, às vezes, fundamentar o conhecimento por meio das experiências são opções ao alcance de toda pessoa lúcida, que pode conseguir o desejado através do esforço empregado para tanto. Prolongar a existência física é factível, não, porém, indefinidamente, por motivos óbvios. Sendo inevitável a morte própria ou dos seres amados, enfrentá-la com serenidade é um sentido de vida normal, que não deve surpreender, nem magoar. Aceitar os indivíduos como são, eliminando a hipótese de que são perfeitos, deuses ou semideuses do panteão da ilusão, funciona como termômetro para o equilíbrio da emoção em torno da realidade da vida humana. Nem paixão, nem abandono diante da vida, mas consciência de como bem viver no relativo tempo terrestre.

Joanna de Ângelis (Espírito) através de Divaldo Pereira Franco, 
no livro Vida: Desafios e Soluções.

domingo, 15 de maio de 2016

A FILOSOFIA ESPÍRITA DA FÉ RACIOCINADA


Por Luis Signates (GO).

As relações entre fé e razão desde o princípio fazem parte do debate filosófico espírita, com a criação por Allan Kardec do conceito de fé raciocinada. De um ponto de vista conceitual, estabelece-se uma contradição aparentemente insuperável, porquanto a fé se funda na convicção e a razão, na dúvida; resulta, então, que ambos se contradizem. Ora, como crer e duvidar são práticas antagônicas por definição, o conceito de "fé raciocinada", seria por isso um evidente contra-senso.

Em Kardec, esse conceito é apresentado dentro de um quadro argumentativo construído para negar uma outra noção, atribuída pelo professor lionês às religiões dogmáticas: a "fé cega". Nesse sentido, a fé raciocinada seria algo próximo de "fé fundamentada", isto é, o adjetivo referente ao raciocínio daria ao sujeito o significado de um estado, e não de um processo. Ou seja, a fé raciocinada não seria propriamente uma "fé que raciocina", e sim, uma fé que já raciocinou antes, para se constituir. Tal interpretação consegue parcialmente satisfazer o quadro lógico de separação entre fé e razão: haveria primeiro o movimento de raciocínio e, somente depois, a fé se constituiria.

Esse ponto de vista, entretanto, não é satisfatório, sob o prisma kardequiano. Ainda nas menções que faz sobre a questão da fé, o codificador publicou em "O Evangelho Segundo o Espiritismo" um axioma que se tornou famoso nos meios doutrinários espíritas: "Fé inabalável só é a que pode encarar a razão, face a face, em todas as épocas da Humanidade". Nessa proposição, Allan Kardec nos remete a uma percepção histórica, processual, do fenômeno da crença, delimitando, com o rigor que lhe era próprio, a característica especial e profundamente inovadora da fé espírita.

Nesse contexto, a fé raciocinada – qualidade que a tornaria inabalável – seria não apenas aquela que se constituísse por um movimento de decisão racional, mas, também, a que se mantivesse em regime de racionalidade contínua, inclusa essa exigência no exercício da própria fé. A conciliação necessária, nesse caso, entre os conceitos de fé e razão, seria feita pela mudança de um raciocínio lógico para um raciocínio dialético: os contrários, ao invés de se excluírem, se complementam, se conjugam, na explicação da realidade.

Dentro desse modo de pensar, a fé espírita forma um par dialético inseparável com a razão espírita. Tal ideia significa que a crença espírita é basicamente uma fé que admite dúvida e com ela convive, durante todo o tempo. Trata-se, pois, de uma fé aberta, dialogal, disposta a modificar as próprias opiniões ou o objeto de sua manifestação como crença, desde que satisfeitas as condições do livre exercício da razão. Em contrapartida, a razão espírita constitui uma dúvida que se baseia na fé, capaz de fazer emergir as desconfianças naturais da racionalidade sem uma pretensão cética ou cientificista, e que, sobretudo, está disposta a admitir a crença e a confiança naqueles conteúdos sobre os quais a razão ainda não assumiu uma postura de conhecimento e verificação. Tal composição resulta no que Herculano Pires denominou, muito apropriadamente, "fideísmo crítico".

O uso da razão é a admissão da dúvida, a qual, no Espiritismo, se funda no princípio filosófico da imperfeição espiritual (temos preferido denominá-la incompletude, para retirar o sentido pejorativo do termo "imperfeição", como algo "errado, estragado, com defeito"), o que faz da jornada espiritual a contínua e necessária possibilidade da mudança. Por esta via, o Espiritismo funda um novo iluminismo, cuja formulação acredita na racionalidade como fundamento da fé humana e, por tal razão, confia no aperfeiçoamento das possibilidades da razão como geratriz do aprimoramento da fé.

Feitas tais considerações, de ordem filosófica, convém refletir pragmaticamente. Nem todos os espíritas na atualidade compreendem o que significa essa dimensão do conceito de fé raciocinada. Não raro, imaginam que raciocinar seja o mesmo que racionalizar, isto é, referir-se à razão como pretexto para justificar o dogma, o que transforma o argumento racional em argumento ideológico (no sentido negativo, como falsa concepção da realidade, apoiada somente em critérios de identidade religiosa), atitude que de modo algum pode ser justificada na proposta de Kardec. Fé raciocinada, portanto, não é o mesmo que fé racionalizada (até porque todas as formas de fé podem ser enquadradas neste último tipo).

Dentre as diversas concepções de racionalidade válidas em filosofia, acreditamos que a noção de "razão comunicativa" ou "razão consensual", do filósofo alemão Jürgen Habermas, é a que melhor se adequa ao conceito de fé raciocinada, em Kardec. Para aquele pensador, há racionalidade sempre que houver diálogo onde se instaurem consensos entre os interlocutores, sendo que a verificação prática do consenso seria a própria demonstração de que houve racionalidade. Em outras palavras: razão é o diálogo que dá certo.

Em Kardec, a fé raciocinada é a fé que permanece em constante contato com a razão, isto é, busca sempre um saber mais amplo, argumenta e se questiona. Para isso, a fé espírita há de ser permanentemente reconstruída no diálogo com os diversos saberes, especialmente na interação entre o saber humano, de vertente científica, filosófica ou experiencial, e o saber espiritual, originado da interlocução mediúnica. Eis, portanto, sob formulação espírita, a razão comunicativa, um movimento de construção da crença erigido sobre o diálogo e, por isso, capaz de "enfrentar a razão, face a face, em qualquer época da Humanidade".

Os espíritas, por isso, não podem abandonar em tempo algum a possibilidade do diálogo, não apenas com os espíritos, a partir dos quais o conhecimento assume a forma de "revelação", em definição kardequiana, mas também com os variados saberes humanos, especialmente o filosófico e o científico. A fé espírita há de ser uma fé em constante atualização, uma fé sempre renovada, sempre reconstruída. Ou recairá lamentavelmente num novo tipo de fé cega: a que se contenta em apenas fingir que vê.

ESPIRITUALIDADE E POLÍTICA. POR QUE TEMOS QUE SER MAIS ESPIRITUAIS.


Publicado originalmente em REVISTA OÁSIS.

Não parecemos estar equipados para explorar toda a profundidade e amplitude da experiência humana.

Por Jonathan Rowson. Fonte: Revista Prospect

Hoje, o sentimento popular predominante é de irrefletida confusão espiritual. Os noticiários modernos estão inundados de referências religiosas, mas o comentário sobre perspectivas, experiências e práticas espirituais mais amplas, é no geral relativamente subdesenvolvido.

O Papa, por exemplo, quando faz seus apelos para uma ação mais efetiva com relação às alterações climáticas, consegue atingir bem mais além dos fiéis católicos. Mas onde está a linguagem do medo, culpa, esperança e ameaça existencial que está subjacente à preocupação climática? Nossos bispos apelam para uma maior imaginação política para conectar nossa vida interior com aquela exterior. Mas além das esperanças oblíquas de pensadores como Russell Brand com vistas a uma revolução no âmbito da alma, onde estão as formas e modelos de vida sugeridos que vão além da doutrina religiosa? E nós, com razão, perguntamos em que sentido o Estado Islâmico é islâmico, já que ele não parece Estado e nem islâmico. Mas podemos dar uma resposta adequada a seus atos bárbaros de violência sem uma discussão mais aberta e honesta sobre os aspectos mais sombrios da nossa própria natureza?

Fora das grandes instituições religiosas, que já não falam mais em nome da maioria das pessoas, nós não parecemos estar equipados para explorar toda a profundidade e amplitude da experiência humana. Estamos espiritualmente confusos, no sentido de que temos de lutar muito para pensar e conseguir falar coerentemente de coisas que são profundamente mais importantes para nós como, por exemplo, quem e o que amamos, o que nos dá orgulho ou sofrimento, e o fato de que fatalmente iremos morrer. Achar que tais questões fundamentais relativas à vida são privadas, pessoais e localizadas, é precisamente o problema. Insistir nas motivações e nos valores expressos através de tais experiências e reflexões pode ser central em qualquer tentativa séria de re-orientar a sociedade. O ator Michael Sheen não está sozinho ao considerar que o alarido político que agora nos é oferecido como sendo política grande e verdadeira, é, na verdade “um pântano gelatinoso e monótono de neutralidade”.

Formas para a revitalizacão da espiritualidade

A RSA 21st Century Enlightment (www.thersa.org), uma organização que geralmente se concentra em tópicos mais convencionais de política pública, como empreendimento, educação e crescimento das cidades, reconheceu este desafio em um novo relatório chamado Spiritualise. O relatório foca nas formas de revitalizar nossa compreensão e apreciação da espiritualidade para enriquecer o debate político do século 21, mas resiste a apelos para a espiritualidade ser vista como um novo martelo em uma velha caixa de ferramentas, para acertar pregos estabelecidos na cabeça. Aqueles que são demasiadamente apressados para perguntar o que é exatamente a espiritualidade , e como exatamente ela vai ajudar a criar um novo conceito político e novas agendas políticas estão, de fato, perpetuando o problema e perdendo o foco.

A contínua negligência do espiritual na sociedade moderna não é benigna, pois ela serve para reprimir e estigmatizar recursos intelectuais que não são redutíveis a objetivos claros, definições precisas e medidas repetíveis. Reavaliar o espiritual significa precisamente desafiar a hegemonia do pensamento tecnocrático, e fazer o debate público menos instrumental em sua natureza. Uma vez que você percebe que questões de significado, o sagrado e a transcendência não são domínio exclusivo da religião, torna-se óbvio que eles devem representar uma parte maior da vida política.

Em seu texto clássico, Auto-Despertado (Self Awakened), o conceituado filósofo político Roberto Unger coloca as coisas dessa forma: "Se o espírito é um nome para as faculdades resistentes e transcendentes do agente, podemos espiritualizar a sociedade. Podemos diminuir a distância entre o que somos e o que nós encontramos fora de nós mesmos”.

A necessidade de diminuir a distância entre o que somos e o que nós encontramos fora de nós mesmos é um dos grandes desafios do momento atual que mostra porque vale a pena lutar pelo espiritual. Tanto o termo “espiritual” como sendo algo que possui profunda relevância política, quanto a metáfora de lutar, de reconhecer o espiritual, não são questões fáceis ou escapistas, mas sim pontos críticos importantes sobre os quais o trabalho humano deve ser aplicado.

De acordo com uma sondagem de 2013 pela organização Theos, 59 por cento dos adultos britânicos acreditam em "algum tipo de ser espiritual ou essência" e quase um quarto dos ateus "acredita em uma alma humana", mas tais valores apenas aumentam a sensação de confusão espiritual. É como se as linguagens disponíveis tivessem se tornado muito saturadas para transmitir um significado. Em parte, isso acontece porque as ferramentas de pesquisa construídas para medir e interessar a mídia são demasiado toscas para capturar as complexidades da experiência humana.

Um problema mais profundo é que a nossa noção de senso comum sobre crença como conhecimento diluído ou incompleto não capta o sentido mais rico da crença como identificação de grupo, práticas compartilhadas e afinidade por convivência. Crenças sobre valores e significados e a realidade verdadeira não são formadas ou mantidas da mesma forma como as nossas crenças sobre fatos básicos; em vez disso elas surgem de forma sutil e inconsciente a partir da osmose social e cultural.

A espiritualidade permanece ambígua

Aqueles que dizem que espiritualidade nada tem a ver com "crença" estão, portanto, apenas meio corretos, mas a espiritualidade permanece ambígua inclusive por uma boa razão. Não é um conceito unitário, mas uma placa de sinalização para uma gama de critérios; nossa busca por sentido, nosso senso do sagrado, o valor da compaixão, a experiência da transcendência, a fome por transformação.

Tais critérios são essencialmente humanos ao invés de meramente religiosos, e são buscados tanto no mundo urbanizado hiper-conectado e em constante movimento como em uma tranquila igreja de aldeia. Por exemplo, quando você considera a onipresença das "armas de distração em massa", incluindo anúncios e smartphones, sendo treinados para se reconectar com a respiração através de profunda meditação não é apenas sobre a paz individual, mas também uma guerra mais ampla para o controle da nossa atenção. Beber álcool é superficialmente sobre relaxar, mas é mais fundamentalmente sobre escapar do eu, e sua incessante vibração interna. Torcer para equipes de futebol é superficialmente sobre entretenimento, mas atende a uma profunda necessidade de solidariedade e de ritual. E quais são esses momentos que nós, em silêncio,  ansiamos viver, se não pedaços da transcendência?

A necessidade espiritual e de expressão é perene, mas se manifesta de acordo com o contexto histórico e cultural, e esse contexto é curiosamente cobrado no momento presente. Como investigador principal deste projeto de dois anos da RSA, notei que a simples menção da palavra "Espiritualidade" provoca reações curiosas que podem ser lidas nas expressões faciais das pessoas, dividindo as pessoas em três grupos principais:

1. "Espirituais vira casaca (Spiritual Swingers)": São animados, arregalam os olhos, mas às vezes eles olham para você como quem quer e precisa de alguma ajuda. Gostam de meditação e massagens, de misticismo em ashrams e  mosteiros, adoram o luar e as técnicas de meditação de atenção plena. Estão dispostos a experimentar qualquer coisa, contanto que seja "espiritual", e de preferência não muito "religiosa".

2. "Diplomatas religiosos": Olham para você calorosamente mas um tanto intrigados, porque eles não conseguem descobrir qual é a sua verdadeira motivação. Será você, no fundo, um deles? Ou você secretamente deseja substituir os métodos estabelecidos que eles já conhecem por algo sedicioso e não plenamente confiável?

3. "Assassinos intelectuais": Apenas olham para você o mais educadamente possível. Seu olhar de desconforto chega a beira do desdém e são os mais rápidos a pedir uma definição do que é o espiritual, mas geralmente com o expresso propósito de desprezá-lo.

O desafio, no momento presente, é revitalizar o espiritual de uma forma sensata e inclusiva; madura o suficiente para manter diplomatas religiosos a bordo, sofisticada o suficiente para manter assassinos intelectuais apaziguados, e politicamente relevante para os desafios modernos relacionados a problemas "maiores do que eu" como o terrorismo ou as alterações climáticas. No movimento Spiritualize nós nos concentramos no amor; na nossa necessidade de pertencer a algo que vá além de nós mesmos; na morte; na nossa intermitente consciência de simplesmente estarmos vivos; no Self (o eu impessoal ou superior); no nosso caminho de individuação espiritual através da auto-integração e da autotranscendência; na alma; no nosso  senso de integridade e transcendência, experimentado através do belo e do sublime.

O triste é que, na concepção generalizada que temos hoje de religião, temos terceirizado esses recursos sociais, culturais e psicológicos para uma agenda cripto-consumista elaborada em projetos de identidade casuais destinados exclusivamente aos "spiritual swingers". O que poucos percebem, no entanto, é que não foi esse tipo de espiritualidade comercializada que roubou a religião, mas que, enquanto a religião estava olhando para o outro lado, o consumismo roubou a espiritualidade.

Através de secularização gradual ocorrida nos séculos 18, 19 e início do 20, a sociedade removeu a religião da nossa economia política para tentar limitar o abuso de poder fora de controle democrático. Com razão, mas este processo causou alguns danos colaterais para a linguagem do valor intrínseco. Uma implicação, destacada pelo professor da Harvard Michael Sandel, é que lenta mas seguramente uma sociedade com mercado se tornou uma sociedade de mercado. Reconceber o espiritual tem a ver com tentar lidar com essa perda corrosiva da perspectiva, além de fornecer perspectivas mais profundas sobre como estimular a convicção necessária para lidar com problemas como as alterações climáticas e a desigualdade da riqueza global que estão claramente fora do alcance de qualquer cálculo tecnocrático.

Um exemplo deste tipo de linguagem política ficou evidente no BBC Question Tiime logo após o referendo da independência da Escócia. Uma das principais defensoras do Sim, a jornalista Lesley Riddoch foi questionada se era hora de aceitar o resultado final e estabelecer um limite sob a questão constitucional. Ela reconheceu o resultado, mas o qualificou com uma observação que foi muito mais profunda: "O nível de ativismo, comprometimento, imaginação, amizade, camaradagem... Foi o melhor ano da minha vida; do ponto de vista da humanidade e otimismo que foi gerado. Se você foi parte disso... É tão precioso, é tão incomum, que você realmente sente que você não quer ver isso ir embora”, disse Riddoch.

Em uma sociedade que tem sido chamado de cristã, pós cristã, multi-fé, espiritualmente pluralista, secular, pós-secular e pós-religiosa, precisamos de uma discussão pública muito melhor sobre a espiritualidade que partilhamos. É hora de reorientar essa discussão longe daquilo que nunca poderemos realmente saber sobre o nosso lugar no universo, em direção ao que podemos saber, e vivenciar, sobre nós mesmos.


quinta-feira, 12 de maio de 2016

O PT PODERÁ SE REINVENTAR - POR FREI BETTO

 
Ver Dilma ser enxotada do Planalto me traz profunda indignação. Éramos vizinhos na década de 1950, na rua Major Lopes, em Belo Horizonte. Fomos vizinhos de cela no Presídio Tiradentes, em São Paulo, na década de 1970. E, pela terceira vez, vizinhos na Esplanada dos Ministérios, ela ministra e eu assessor especial de Lula, em 2003-2004.

Minha indignação tem a ver com a mesquinhez da política institucional brasileira. Sem convencer a mim e a muitos que Dilma cometeu algum crime, o rolo compressor da oposição ressentida e do oportunismo ontofisiológico de caciques do PMDB, abriu a machadadas um atalho na ordem constitucional para fazer coincidir oposição e deposição. O precedente está criado! Daqui pra frente a tribuna parlamentar cede lugar ao tribunal de Justiça. A judicialização da política brasileira faz com que a soberania popular, através do voto nas urnas, passe a ter insignificância.

Os três primeiros governos do PT representam o que há de melhor em nossa combalida história republicana. Saíram da miséria 45 milhões de brasileiros. Os programas sociais, do Bolsa Família ao Mais Médicos, estenderam à parcela mais pobre da nação uma rede de proteção social. O acesso à universidade foi deselitizado. O FMI deixou de se meter em nossas contas. A América Latina ganhou maior unidade, e Cuba foi retirada do limbo.

Lástima que o PT se deixou picar pela mosca azul. Não ousou implementar reformas de estruturas, como a política, a tributária e a agrária. Permitiu que o Fome Zero, de caráter emancipatório, fosse substituído pelo Bolsa Família, compensatório. Erradicou, em fins de 2004, Comitês Gestores em mais de 2 mil municípios, e entregou às mãos dos prefeitos o cadastro do Bolsa Família.

Como se a retórica fosse suficiente para encobrir gritantes desigualdades, o PT tentou, em vão, ser o pai dos pobres e a mãe dos ricos. Para renovar o Congresso, não confiou no potencial político de líderes de movimentos sociais. Preferiu alianças promíscuas cujos vírus oportunistas acabaram por contaminar alguns de seus dirigentes. Em 13 anos de governo, não se empenhou na alfabetização política da nação nem na democratização da mídia, sequer no modo de distribuir verbas publicitárias para veículos de comunicação.

Graças ao crédito facilitado, ao controle da inflação e ao aumento real (e anual) do salário mínimo acima da inflação, a população teve mais acesso a bens pessoais. Dentro do barraco de favela, toda a linha branca favorecida pela desoneração tributária e, ainda, computador, celular e, quem sabe, no pé do morro, o carro comprado a prestações.

Porém, lá está o barraco ocupado pela família sem acesso à moradia, segurança, saúde, educação e ao transporte coletivo de qualidade. A prioridade deveria ter sido o acesso aos bens sociais. Criou-se, portanto, uma nação de consumistas, não de cidadãos, nação feita de eleitores que votam como quem cumpre um preceito religioso ou retribui um favor de compadrio, enternecidos com os laços de família que se estendem do netinho evocado em pleno parlamento à protuberância glútea exibida ministerialmente.

Entre avanços e desvios, o PT deixa como legado programas sociais que merecem figurar como políticas de Estado, e não ocasionalmente de governos. Mas terá o partido a ousadia de se reinventar?

Agora, os pobres, os excluídos, os sem-terra e os sem-teto, que tinham a esperança de ser felizes, terão que buscar outras agremiações partidárias ou forjar novas ferramentas de fazer política, fundadas na ética, na supressão das causas de desigualdades sociais, e na busca de um outro Brasil possível. 

Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), 
entre outros livros.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

JOSÉ PEPE MUJICA AO RECEBER A MEDALHA DA INCONFIDÊNCIA


Pronunciamento do senador e ex-presidente do Uruguai, José Pepe Mujica, durante solenidade da Medalha da Inconfidência

Mineiros e mineiras, a vida me ensinou algumas coisas. Os únicos derrotados são os que deixam de lutar. Mas vocês têm de saber que não há um prêmio no final do caminho. O prêmio é o caminho mesmo, é o andar mesmo. Nossa luta é muito velha. São falsos os términos. Esquerda e direita são inventos da Revolução Francesa. Na realidade, são caras permanentes da condição humana, como as caras de uma moeda, e fluem e refluem permanentemente na história.

E penso que talvez seja uma luta eterna com fluxos e refluxos, com pontos de partida, com quedas e voltar-se a levantar. Há que se aprender que, na vida, as causas nobres necessitam de coragem sempre para voltar e começar.
Eu sou do sul, venho do sul e represento o sul, os eternos esquecidos do planeta.

Ser do sul não é uma posição geográfica, é um resultado histórico. E venho ao Brasil, tenho cultivado amigos no Brasil, porque a América será livre com a Amazônia ou não será. Porque é enorme o conhecimento e ciência que nos tiraram o mundo central. Porque perdemos nossos melhores filhos, porque lhes pagam melhores salários no mundo central, porque estamos entrando em uma outra era, globalizada, de comunicações, onde a fronteira é mais de negócio do que de amparo e justiça aos povos. E todos sabemos que a democracia nunca será perfeita, e não pode ser, porque é uma construção humana e os seres humanos não são deuses. Não.

Por isso, porque somos diferentes, porque nascemos em lugares diferentes, porque pertencemos a classes diferentes, porque geneticamente temos matizes em nossos programas. Porque nossa história pessoal nos dá ou nos tira pelo que foi. Os homens são semelhantes, mas cada um é particular, diferente, e como não somos perfeitos, a sociedade tem e terá sempre conflitos.

Não podemos viver sozinhos, somos sociais. Ninguém pode viver sozinho. Precisamos de um cardiologista, de um mecânico, de um professor para nosso filho. Precisamos de alguém que dirija o ônibus, de alguém que nos ampare na vida, de uma parteira quando nascemos e de alguém quando morremos.
Porque somos sociais e temos defeitos, porque somos diferentes, há conflitos. Por isso, precisamos da política. Tem razão Aristóteles: o homem é um animal político, porque a função da política não é gerar corrupção e acomodar gente. A função da política é colocar limite à dor e à injustiça. A função da política é lutar por um mundo melhor e também buscar permanentemente as inevitáveis diferenças. A função da política não é aplastar. A função da política é negociar as inevitáveis diferenças que se apresentam na sociedade.

Porque insisto nesse ponto? Porque o pior resultado que se pode ter para as novas gerações é o conflito que se está vivendo no Brasil, e que pode fazer com que muitos jovens cheguem à conclusão de que a política não serve para nada, e são todos iguais.
E caso essa juventude se recolha e que cada um for cuidar apenas de si, é o mesmo que construir a selva. Todos contra todos. Há que salvar a política. Há que dar estatura à política, e isso não é um problema de partido, é um problema do Brasil. Pior que as derrotas é o desencanto.

Viver é construir esperanças, esperanças de um mundo melhor. O que seria da vida sem sonho, sem esperança, sem utopia, sem alegria de viver, o que seria da nossa existência? Um negócio calculado, uma mercadoria que se compra e que se vende.
Não, a espécie humana é outra coisa, é contraditória mas tem sentido e tem sentimento. Se você tem um casal de filhos de três ou quatro anos e leva um jogo só para um, verá que você tem um problema. Porque o outro sente que você não o tratou com igualdade. Porque, companheiros, a igualdade a gente tem dentro de nós, antropologicamente. Não se toma a igualdade como desejo de ser tudo igualzinho, como tijolo, todos alinhados. O sentimento de igualdade é ter o direito às mesmas oportunidades na vida, e quanto nos falta, latino-americanos, para poder dar oportunidade aos milhões que ficam à margem do caminho da nossa pobre América!

Com minha companheira, estivemos 30 anos presos, mas a vida nos deu o prêmio de viver e nada é mais bonito que a vida. Mas sobretudo os jovens devem saber: há que se cuidar da vida, há que semeá-la, há que colocá-la a serviço de uma causa nobre. Aprendam a viver, e tem de trabalhar para viver, porque senão viverás às custas dos outros.
A vida não é só trabalhar. Tem de assegurar tempo para viver, amor, filhos, para os amigos, que nesta vida não é felicidade acumular dinheiro. O problema é acumular carinho e servir para algo. A diferença é como vemos a vida, se a vida é só egoísmo ou a vida é também solidariedade, “hoje por mim, amanhã por você”.

Mineiros, o Brasil é muito grande, muito forte, mas tem muitas feridas. Há que defendê-lo, mas há que se entender que já não estamos no século passado e o desafio é outro. Estão construindo unidades mundiais de caráter gigantesco, como a comunidade econômica europeia, e que se os latino-americanos não conseguirem uma voz comum no concerto internacional, não seremos nada.
Do mundo que nos vê em cima, os frágeis têm de se unir com os frágeis para ser menos frágeis. É isso que temos de começar a entender. A burguesia que conduz a economia não pode sair a colonizar. Há que juntar aliados, porque essa batalha é no mundo inteiro.

Eu me sinto muito uruguaio, e sou brasileiro porque sou americano, porque sou da América Latina. Minha pátria se chama América Latina. Meus irmãos, todos os pobres esquecidos da América Latina. Os que não chegaram em nenhum lugar, os que são apenas um número, os estigmatizados, os perseguidos, os esquecidos, porque democracia não é só votar a cada quatro ou cinco anos. Democracia é acrescentar o sentimento de igualdade da realidade e igualdade básica entre os homens.

Com vocês até sempre. Obrigado, mineiros.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

DEZ LIÇÕES DA MÚLTIPLA CRISE BRASILEIRA


Por Leonardo Boff, publicada originalmente AQUI.

Toda crise acrisola, purifica e faz madurar. Que lições podemos tirar dela? Elenco algumas.

Primeira lição: o tipo de sociedade que temos não pode mais continuar assim com é. As manifestações de 2013 e as atuais mostraram claramente: não queremos mais uma democracia de baixíssima intensidade, uma sociedade profundamente desigual e uma política de negociatas. Nas manifestações os políticos também os da oposição foram escorraçados. Igualmente movimentos sociais organizados. Queremos outro tipo de Brasil, diverso daquele que herdamos que seja democrático, includente, justo e sustentável.

Segunda lição: superar a vergonhosa desigualdade social impedindo que 5 mil famílias extensas controlem quase metade da riqueza nacional. Essa desigualdade se traduz por uma perversa concentração de terras, de capitais e de uma dominação iníqua do sistema financeiro, com bancos que extorquem o povo e o governo cobrando-lhe um superávit primário absurdo para pagar os juros da dívida pública. Enquanto  não se taxarem as grandes fortunas e não submeterem os bancos a níveis razoáveis de lucro o Brasil será sempre desigual, injusto e pobre.

Terceira lição: prevalência do capital social  sobre o capital individual. Quer dizer, o que faz o povo evoluir não é matar-lhe simplesmente a fome e faze-lo um consumidor mas fortalecer-lhe o capital social feito pela educação, pela saúde, pela cultura e pela busca do bem-viver, pré-condições de uma cidadania plena.

Quarta lição: cobrar uma democracia participativa, construída de baixo para cima com forte presença da sociedade organizada especialmente dos movimentos sociais que enriquecem a democracia representativa que, por causa de sua histórica corrupção, o povo sente que ela não mais o representa.

Quinta lição: a reinvenção do Estado nacional. Como foi montado historicamente, atendia as classes que detém o ter, o poder, o saber e a comunicação dentro de uma política de conciliação entre as oligarquias, deixando sempre o povo de fora. Ele está aí  mais para  garantir privilégios do que para realizar o bem geral da nação. O Estado tem que ser a representação da soberania popular e todos os seus aparelhos devem estar a serviço do bem comum, com especial atenção aos vulneráveis (seu caráter ético) e sob o severo controle social com as devidas instituições para isso. Para tal se faz necessária uma reforma política, com nova constituição, fruto da representação nacional e não apenas partidária.

Sexta lição: o dever ético-político de pagar a dívida às vítimas feitas no processo da constituição  de nossa nacionalidade e que nunca foi paga: para com os indígenas quase exterminados, para com os afrodescendentes (mais da metade da população brasileira) feitos escravos, carvão para o processo produtivo; os pobres em geral sempre esquecidos pelas políticas públicas e desprezados  e humilhados pelas classes dominantes. Urge políticas compensatórias e pro-ativas para criar-lhes oportunidades de se autopromoverem e se inserirem nos benefícios da sociedade moderna.

Sétima lição: fim do presidencialismo de coalizão de partidos, feito à base de negócios e de tráfico de influência, de costas para o povo; é uma política de planalto desconectada da planície onde vive o povo. Com ou sem Dilma Rousseff à frente do governo, precisa-se, para sair da pluricrise atual, de uma nova concertação entre as forças existentes na nação. Não pode ser apenas entre os partidos que tenderiam a reproduzir a velha e desastrada política de conciliação ou de coalizão mas uma concertação que acolha representantes da sociedade civil organizada, movimentos sociais de caráter nacional, representantes do empresariado, da intelectualidade, das artes, das mulheres,  das igrejas e das religiões a fim de elaborar uma agenda mínima aceita por todos.

Oitava lição: O caráter claramente republicano da democracia que vai além da neoliberal e privatista. Em outras palavras, o bem comum (res publica) deve ganhar centralidade e em seguida o bem privado. Isso se concretiza por política sociais que atendam as demandas mais gerais  da população  a partir dos necessitados e deixados para trás. As políticas sociais não se restringem apenas a ser distributivas mas importa serem  redistributivas (diminuir de quem tem de mais para repassar para quem tem de menos), em vista da redução da desigualdade social.

Nona lição: a dimensão geopolítica da crise brasileira. Não se pode pensar o Brasil apenas a partir do Brasil mas sempre dentro do contexto geopolítico global. Há grandes interesses dos USA, da China, da Rússia, da Arábia Saudita pela segunda maior jazida de petróleo do mundo, o pré-sal, e também como alinhar a sétima economia mundial dentro da linha geral definida pelos países centrais que controlam a macroeconomia neoliberal e capitalista. Não querem que no Atlântico Sul surja uma potência que siga um caminho próprio, especialmente articulada com os BRICS que fazem um contraponto ao sistema mundial imperante.

Décima lição: inclusão da natureza com seus bens e serviços e da Mãe Terra com seus direitos na constituição de um novo tipo de democracia sócio-cósmica, à altura consciência ecológica que reconhece todos os seres como sujeitos de direitos formando um grande todo: Terra-natureza-ser humano. É a base de um novo tipo de civilização, biocentrada, capaz de garantir o futuro da vida e de nossa civilização.

ESPERO QUE AS PRÓXIMAS GERAÇÕES NOS PERDOEM


Por Leonardo Sakamoto originalmente publicado AQUI.

Você pode ser a favor ou contra o impeachment de Dilma Rousseff. É um direito seu. E você tem direito a ter suas razões.

Alguns consideram que há provas suficientes para dizer que ela cometeu crime de responsabilidade nos decretos orçamentários e que um presidente só pode fazer aquilo que lhe foi previamente autorizado por lei, nem mais, nem menos.

Outros dizem que isso não é suficiente e que o argumento é apenas uma justificativa encontrada por partidos políticos e grupos econômicos que não conseguem votos nas urnas executarem um golpe e chegarem pela via fácil ao poder.

Acho uma leviandade dizer que todos os que defendem o impeachment são canalhas, do mesmo nível de dizer que todos que denunciam-no como golpe são vendidos.

Feita essa explicação, tenho algumas perguntas:

A gente bebeu, foi? Chapamos o cabeção? Fumigamos as ruas com cogumelos alucinógenos? Tem ácido na água da torneira?

Porque só numa republiqueta mequetrefe, um vice-presidente – que se diz um jurista especializado na Constituição Federal – age à luz do dia para articular a destituição da presidente do cargo, assumir no seu lugar e ninguém acha isso estranho. Independentemente de haver elementos para destituição ou não. Pior, sou obrigado a ouvir que isso faz parte do jogo democrático. Sem contar os elogios a ele em público pela ação.

O vice deveria ser o primeiro a ficar no seu canto e aguardar o processo ser decidido. Até para não ser atribuído a ele a pecha de golpista, uma vez que será o principal beneficiado.

Mas Michel não se importa.

Em tempos normais, a imprensa seria mais crítica às presepadas de Temer, como os “vazamentos'' (nota mental: vazamento é tudo aquilo que soltamos como balão de ensaio, mas não pegou bem) da “cartinha'' à Dilma e do áudio do “discurso'' como novo presidente. Isso sem contar as histórias das pedras do porto de Santos.

Mas dada a ânsia para ver troca de comando no governo federal, estamos nos esquecendo do básico.

Não importa se você ache este um bom governo ou não (eu acho péssimo, terrível, uma calamidade na maioria das áreas) ou defenda que ele deva sair, ser saído ou ficar. A discussão deste post não é essa, mas sim se é válido um vice estar usando o cargo para conspirar e banalizarmos isso a ponto de não falarmos nada em público.

Criticar Temer não significa necessariamente defender Dilma. Até uma morsa em coma entende isso. É possível e, aliás, desejável criticar ambos. Mas considerando que um exército de pessoas desistiu de raciocinar neste momento da política nacional, sinto pela falta de morsas.

AMBOS OS LADOS aprofundaram a Câmara dos Deputados como um bizarro balcão de negócios pró e contra o impeachment, com promessas de cargos para pagar a votação de domingo. Isso sem contar as denúncias de compras de votos que correm pelo Salão Verde da Câmara, com milhões prometidos em dinheiro público ou pelo caixa de empresas e associações empresariais.

Sob a justificativa de limpar o país da corrupção e da incompetência na gestão pública, estamos vendo as coisas sendo lavadas com merda no Congresso. E sorrimos o pragmatismo. Não há como uma jovem democracia sair impune disso.

Espero que as próximas gerações nos perdoem.

terça-feira, 5 de abril de 2016

NOVOS ATENIENSES

Mas quando ouviram falar de ressurreição dos mortos, uns escarneciam e outros diziam: Acerca disso te ouviremos outra vez. - (Atos, 17:32)

O contacto de Paulo com os atenienses, no Areópago, apresenta lição interessante aos discípulos novos.

Enquanto o apóstolo comentava as suas impressões da cidade célebre, aguçando talvez a vaidade dos circunstantes, pelas referências aos santuários e pelo jogo sutil dos raciocínios, foi atentamente ouvido. É possível que a assembléia o aclamasse com fervor, se sua palavra se detivesse no quadro filosófico das primeiras exposições. Atenas reverenciá-lo-ia, então, por sábio, apresentando-o, ao mundo, na moldura especial de seus nomes inesquecíveis. 

Paulo, todavia, refere-se à ressurreição dos mortos, deixando entrever a gloriosa continuação da vida, além das ninharias terrestres. Desde esse instante, os ouvintes sentiram-se menos bem e chegaram a escarnecer-lhe a palavra amorosa e sincera, deixando-o quase só. 

O ensinamento enquadra-se perfeitamente nos dias que correm. Numerosos trabalhadores do Cristo, nos diversos setores da cultura moderna, são atenciosamente ouvidos e respeitados por autoridades nos assuntos em que se especializaram; contudo, ao declararem sua crença na vida além do corpo, em afirmando a lei de responsabilidade, para lá do sepulcro, recebem, de imediato, o riso escarninho dos admiradores de minutos antes, que os deixam sozinhos, proporcionando-lhes a impressão de verdadeiro deserto. 

Por Emmanuel (Espírito) através de Francisco Cândido Xavier, no livro "Pão Nosso", capítulo 114.