Introdução

Há muito o que ser aprendido. Há muito o que podemos extrair do que vemos, tocamos, ouvimos, e acima de tudo, sentimos. Nossa sabedoria vem dos retalhos que vamos colhendo ao longo de nossa evolução, que os leva a formar a colcha que somos. Esse espaço é para que eu possa compartilhar das luzes que formam o que Eu tenho sido!!!

quarta-feira, 8 de maio de 2019

O FATOR ÉTICO

Se a legislação penal severa e sistema penitenciário populoso fossem sinônimos de paz social, o Brasil e os Estados Unidos seriam a Suécia.

Condicionada à transferência de responsabilidade, a sociedade brasileira, de tempos em tempos, pressiona o Poder Legislativo por leis penais mais duras, como se o sistema penitenciário fosse espécie de buraco negro, no qual os apenados se isolam por completo, do universo social para nunca mais a ele retornarem.

Em verdade, muitas vezes, organizações criminosas se agasalham no relativo porto seguro do cárcere, bunker de onde melhor podem intervir no seio da coletividade. 

Os elevados índices de violência, criminalidade e corrupção espelham a sombra da sociedade, que ela tenta combater de forma paliativa, por meio de excessivos diplomas legislativos e muito protesto. 

O fundo de pano da distopia em que vivemos tem a ver com a reconhecida e histórica necessidade de maior distribuição de renda, desenvolvimento sócio-econômico auto-sustentável e democratização do acesso ao conhecimento em escala planetária. 

Ocorre que o cerne das mazelas sociais radica no fator ético. Há gerações que ressaltam os grandes líderes espirituais da Humanidade: a sociedade só será reformada quando o ser humano conhecer e reformar a si mesmo

É sempre possível alterar e burilar normas jurídicas e políticas públicas. 

No entanto, os pontos nevrálgicos passam despercebidos do discurso de formadores de opinião: a urgência e a relevância de o indivíduo priorizar sua evolução; compreender a fundo suas virtudes, deficiências e excessos; sobrepujar, com eficácia, os aspectos negativos de sua personalidade; dedicar-se à realização íntima, pelo despertar em si de valores, hábitos e vocações dignificantes, fruto da perseverança, na atuação nas esferas pública e privada; em diminuir o abismo entre a prédica e a prática dos ensinamentos do Evangelho, consubstanciada nas "Leis Morais" de O Livro dos Espíritos. 

Criticar o criticável, porém, indignar-se mais consigo próprio. 

Por Hidemberg Alves da Frota, publicado originalmente na Revista Reformador, dezembro de 2008. 

domingo, 5 de maio de 2019

A RELIGIÃO E O PROGRESSO

Hoje geralmente se pensa que a Igreja admite o fogo do inferno como um fogo moral e não como um fogo material. Tal é, pelo menos, a opinião da maioria dos teólogos e de muitos eclesiásticos esclarecidos. Contudo, é apenas uma opinião individual, e não uma crença adquirida pela ortodoxia, pois, do contrário, seria universalmente professada. Pode julgar-se pelo seguinte quadro, que um pregador traçou do inferno, durante a última quaresma, em Montreuil-sur-Mer:

“O fogo do inferno é milhões de vezes mais intenso que o da Terra, e se um dos corpos que ali queimam sem se consumir viesse a ser lançado no nosso planeta, empestá-lo-ia de ponta a ponta! O inferno é uma vasta e sombria caverna, guarnecida de pregos pontiagudos, de lâminas de espadas afiadas, de navalhas bem cortantes, na qual são precipitadas as almas dos danados!”

Seria supérfluo refutar esta descrição; no entanto, poderíamos perguntar ao orador onde colheu um conhecimento tão preciso do lugar que descreve. Por certo não foi no Evangelho, onde não se trata de pregos, nem de espadas, nem de navalhas. Para saber se essas lâminas são bem afiadas e bem cortantes, é preciso tê-las visto e experimentado. Será que, novo Enéas ou Orfeu, ele próprio teria descido a essa caverna sombria que, aliás, muito se assemelha ao Tártaro dos pagãos? Além disso, ele deveria ter explicado a ação que pregos e navalhas poderiam ter sobre as almas e a necessidade de serem bem afiados e de boa têmpera. Já que conhece tão bem os detalhes interiores do local, também deveria ter dito onde está situado. Não é no centro da Terra, pois supõe a hipótese de um dos corpos que ela encerra ter sido lançado em nosso planeta. Então é no espaço? Mas a astronomia aí fixou o seu olhar muito antes, sem nada descobrir. É verdade que não olhou com os olhos da fé.

Seja como for, o quadro é feito para seduzir os incrédulos? É bastante duvidoso, pois é mais adequado para diminuir o número dos crentes.

Em contrapartida, citaremos o seguinte trecho de uma carta escrita de Riom, e relatada no jornal Vérité, em seu número de 20 de março de 1864:

“Ontem, para minha grande surpresa e satisfação, ouvi com os próprios ouvidos esta serena confissão da boca de um eloquente pregador, em presença de numeroso e atônito auditório: não há mais inferno… o inferno não existe mais… foi substituído admiravelmente pelos fogos da caridade e do amor, que resgatam as nossas faltas! Nossa divina doutrina (o Espiritismo) não está encerrada inteiramente nestas poucas palavras?”

É inútil dizer qual dos dois teve mais simpatias do auditório; mas o segundo poderia até ser acusado de heresia pelo primeiro. Outrora teria expiado, infalivelmente, na fogueira ou numa masmorra a audácia de haver proclamado que Deus não manda queimar as suas criaturas.

Esta dupla citação nos sugere as seguintes reflexões:

- Se uns acreditam na materialidade das penas, enquanto outros a negam, necessariamente uns laboram em erro e outros têm razão.

- Este ponto é mais capital do que parece à primeira vista, porque é o caminho aberto às interpretações numa religião fundada na unidade absoluta da crença e que, em princípio, repele a interpretação.

- É bem certo que até hoje a materialidade das penas tem participado das crenças dogmáticas da Igreja. Por que, então, nem todos os teólogos lhe dão crédito? Como nem uns, nem outros o verificaram por si mesmos, o que leva alguns a ver apenas uma imagem onde outros veem a realidade, senão a razão que, nos primeiros, supera a fé cega? Ora, a razão é o livre-exame.

- Eis, pois, a razão e o livre-exame entrando na Igreja pela força da opinião. Poder-se-ia dizer, sem metáfora, pela porta do inferno; é a mão posta no santuário dos dogmas, não pelos leigos, mas pelo próprio clero.

- Não se julgue esta uma questão de menor importância, pois contém em si o germe de toda uma revolução religiosa e de um imenso cisma, muito mais radical que o protestantismo, porque não ameaça apenas o catolicismo, mas o protestantismo, a Igreja grega e todas as seitas cristãs. Com efeito, entre a materialidade das penas e as penas puramente morais, há toda a distância do sentido próprio ao sentido figurado, da alegoria à realidade. Desde que se admitam as chamas do inferno como alegoria, torna-se evidente que as palavras de Jesus: “Ide ao fogo eterno” têm um sentido alegórico. Daí a consequência de que o mesmo deve acontecer com outras de suas palavras.

- Mas a consequência mais grave é esta: uma vez que se admita a interpretação sobre um ponto, não há motivo para a rejeitar sobre outros; é, pois, como dissemos, a porta aberta à livre discussão, um golpe mortal desferido no princípio absoluto da fé cega. A crença na materialidade das penas liga-se intimamente a outros artigos de fé, que lhe são corolários; transformada essa crença, as outras se transformarão pela força das coisas e, assim, gradualmente.

- Já temos uma aplicação disto. Há poucos anos ainda, o dogma: Fora da Igreja não há salvação, estava em toda a sua força; o batismo era condição tão imperiosa, que bastava que o filho de um herético o recebesse clandestinamente e à revelia dos pais, para ser salvo, porquanto tudo que não fosse rigorosamente ortodoxo era irremissivelmente condenado. Mas, tendo a razão humana se levantado contra esses bilhões de almas votadas às torturas eternas, quando delas não dependera ser esclarecidas na verdadeira fé; contra essas inúmeras crianças que morrem antes de adquirir a consciência de seus atos e que, nem por isso, são menos danadas, se a negligência ou a fé religiosa de seus pais as privou do batismo, a Igreja viu-se forçada, nesse ponto, a renunciar ao seu absolutismo. Hoje ela diz, ou, pelo menos, diz a maioria de seus teólogos, que essas crianças não são responsáveis pelas faltas dos pais; que a responsabilidade só começa no momento em que, tendo a possibilidade de se esclarecerem, o recusam e, por isto, estas crianças não são danadas por não haverem recebido o batismo; que o mesmo se dá com os selvagens e os idólatras de todas as seitas. Alguns vão mais longe: reconhecem que, pela prática das virtudes cristãs, isto é, da humildade e da caridade, pode-se ser salvo em todas as religiões, porque depende, também, da vontade de um hindu, de um judeu, de um muçulmano, de um protestante, quanto de um católico, viver cristãmente; que aquele que vive assim está na Igreja pelo espírito, mesmo que não o esteja pela forma. Não está aí o princípio: Fora da Igreja não há salvação, ampliado e transformado no Fora da caridade não há salvação? É precisamente o que ensina o Espiritismo e, contudo, é por isto que ele é declarado obra do demônio. Por que essas máximas seriam o sopro do demônio na boca dos espíritas e não na dos ministros da Igreja? Se a ortodoxia da fé está ameaçada, então não o é pelo Espiritismo, mas pela própria Igreja, porque ela sofre, mau grado seu, a pressão da opinião geral e porque, entre seus membros, encontram-se alguns que veem as coisas de mais alto e nos quais a força da lógica leva a melhor a fé cega.

- Talvez parecesse temerário dizer que a Igreja marcha ao encontro do Espiritismo; entretanto, é uma verdade que reconhecerão mais tarde. Avançando para o combater, nem por isso ela deixa, pouco a pouco, de lhe assimilar os princípios, mesmo sem o suspeitar.

- Esta nova maneira de encarar a questão da salvação é grave. Posto acima da forma, o Espírito é um princípio eminentemente revolucionário na ortodoxia. Sendo reconhecida possível a salvação fora da Igreja, a eficácia do batismo é relativa, e não absoluta: torna-se um símbolo. Não trazendo a criança não batizada a pena da negligência nem da má vontade dos pais, em que se torna a pena incorrida por todo o gênero humano pela falta do primeiro homem? Em que se torna também o pecado original, tal qual o entende a Igreja?

- Muitas vezes os maiores efeitos decorrem de pequenas causas. O direito de interpretação e de livre-exame, pueril na aparência, uma vez admitido na questão da materialidade das penas futuras, é um primeiro passo cujas consequências são incalculáveis, porque representa uma brecha na imutabilidade dogmática, e uma pedra arrancada arrasta outras. Forçoso é convir: a posição da Igreja é delicada. Todavia, só há um dos dois partidos a tomar: ficar estacionária, a despeito de tudo, ou ir para frente. Mas, então, não poderá escapar deste dilema: se se imobilizar de modo absoluto nos erros do passado, será infalivelmente superada, como já o é, pelo fluxo das ideias novas, depois isolada e, por fim, desmembrada, como o seria hoje, se tivesse persistido em expulsar do seu seio os que creem no movimento da Terra, ou nos períodos geológicos da Criação; se entrar na via da interpretação dos dogmas transforma-se e aí entra pelo simples fato de renunciar à materialidade das penas e à necessidade absoluta do batismo.



O perigo de uma transformação, aliás, está clara e energicamente formulado na seguinte passagem de um opúsculo publicado pelo padre Marin de Boylesve, da Companhia de Jesus, sob o título de O milagre e o diabo, em resposta à Revue Des Deux Mondes. 

“Há, entre outras, uma questão que, para a religião, é de vida ou de morte: a questão do milagre. A do diabo não o é menos. Tirai o diabo, e o Cristianismo desaparece. Se o diabo não passar de um mito, a queda de Adão e o pecado original entrarão no domínio das fábulas. Por conseguinte a redenção, o batismo, a Igreja, o Cristianismo, numa palavra, não têm mais razão de ser. Por isso a Ciência não poupa esforços para apagar o milagre e suprimir o diabo.”

Desse modo, se a Ciência descobrir uma lei da Natureza, que faça entrar nos fatos naturais um fato que é reputado miraculoso; se provar a anterioridade da raça humana e a multiplicidade de suas origens, todo o edifício se desmorona. Uma religião é muito frágil quando uma descoberta científica lhe é uma questão de vida e morte. Eis uma confissão desastrada. Por nossa conta, estamos longe de partilhar das apreensões do padre Boylesve em relação ao Cristianismo. Dizemos que o Cristianismo, tal qual saiu da boca de Jesus, mas apenas tal qual saiu, é invulnerável, porque é a lei de Deus.

A conclusão é esta: nada de concessão, sob pena de morrer. Esquece o autor de examinar se há mais chances de viver na imobilidade. Nossa opinião é que há menos e que é preferível viver transformado a não viver de modo algum.

Num e noutro caso, a cisão é inevitável. Pode mesmo dizer-se que já existe; a unidade doutrinária está rompida, pois não há acordo perfeito no ensino; uns aprovam o que outros censuram; uns absolvem o que outros condenam. Assim, veem-se fiéis indo de preferência àqueles cujas ideias mais lhes convêm. Dividindo-se os pastores, o rebanho igualmente se divide. Dessa divergência a uma separação, a distância não é grande; um passo a mais e os que estão na vanguarda serão tratados como heréticos pelos que ficaram na retaguarda. Ora, eis o cisma estabelecido; aí está o perigo da imobilidade.

A religião, ou melhor, todas as religiões sofrem, mau grado seu, a influência do movimento progressivo das ideias. Uma necessidade fatal as obriga a se manterem no nível do movimento ascensional, sob pena de soçobrarem. Assim, todas têm sido forçadas, de tempos em tempos, a fazer concessões à Ciência, a minimizar o sentido literal de certas crenças ante a evidência dos fatos. A que repudiasse as descobertas da Ciência e suas consequências, do ponto de vista religioso, mais cedo ou mais tarde perderia a sua autoridade e o seu crédito e aumentaria o número dos incrédulos. Se uma religião qualquer pode ser comprometida pela Ciência, a culpa não é da Ciência, mas da religião fundada sobre dogmas absolutos, em contradição com as leis da Natureza, que são leis divinas. Repudiar a Ciência é, pois, repudiar as leis da Natureza e, por isto mesmo, renegar a obra de Deus; fazê-lo em nome da religião seria pôr Deus em contradição consigo mesmo e fazê-lo dizer: estabeleci leis para reger o mundo; mas não acrediteis nessas leis.

O homem não tem sido capaz, nas diferentes épocas, de conhecer todas as leis da Natureza. A descoberta sucessiva dessas leis constitui o progresso; daí, para as religiões, a necessidade de pôr suas crenças e seus dogmas em harmonia com o progresso, sob pena de receberem o desmentido dos fatos constatados pela Ciência. Só com esta condição uma religião é invulnerável. Em nossa opinião, a religião deveria fazer mais do que se pôr a reboque do progresso, que apenas acompanha constrangida e forçada; deveria ser uma sentinela avançada, porque é honrar a Deus proclamar a grandeza e a sabedoria de suas leis.

A contradição que existe entre certas crenças religiosas e as leis naturais fez a maioria dos incrédulos, cujo número aumenta à medida que se populariza o conhecimento dessas leis. Se fosse impossível o acordo entre a Ciência e a religião, não haveria religião possível. Proclamamos altamente a possibilidade e a necessidade desse acordo, porque, em nosso entender, a Ciência e a religião são irmãs para a maior glória de Deus [ad majorem Dei glorium] e devem completar-se entre si, em vez de se desmentirem reciprocamente. Elas se estenderão as mãos, quando a Ciência não vir na religião nada de incompatível com os fatos demonstrados e a religião não mais tiver que temer a demonstração dos fatos. O Espiritismo, pela revelação das leis que regem as relações entre o mundo visível e o mundo invisível, será o traço de união que lhes permitirá se olhem face a face, uma sem rir, a outra sem tremer. É pela concordância da fé e da razão que diariamente tantos incrédulos são reconduzidos a Deus.

Allan Kardec 
Publicado originalmente na Revista Espírita - Ano VII - Julho de 1864

sexta-feira, 19 de abril de 2019

REVOLUÇÃO ESPÍRITA

Quando uma lente concentra a luz do Sol e faz a palha pegar fogo, reconhecemos a naturalidade desse fato, pois ele ocorre em virtude de leis naturais. Na Antiguidade, porém, quando uma relva pegava fogo espontaneamente, acreditava-se que alguma vontade sobrenatural teria sido a causa. Para que se considere algo como lei natural, precisamos conhecer o mecanismo de sua regularidade. Quanto aos nossos sentimentos, os impulsos que nos incitam a agir bem ou mal na hora de tomar uma decisão, levam a imaginar que seriam seres sobrenaturais, anjos ou demônios nos incitando a atuar de uma ou outra forma. Como agir conta o egoísmo é desagradável, fazer o bem parece ser uma vontade de Deus e não nossa. Seguindo esse raciocínio, deixar de satisfazer nossos desejos para fazer o que Deus manda seria um sacrifício, só fazendo sentido se for para que Ele nos recompense, ou para que não nos castigue. E se agimos errado, precisamos do perdão para que nos queira bem de novo. Esse raciocínio coloca Deus agindo de acordo com uma temida soberania humana. O que importa seria obedecer sua vontade ou sofrer o castigo eterno nos infernos. Já o naturalismo considera que o impulso de satisfazer nossos desejos materiais é natural e representa o bem, tudo que nos impede disso é o mal. A moral seria um acordo social para determinar limites entre os indivíduos. O melhor da vida seria viver a plenitude dos desejos, fantasias e prazeres a cada momento. 

Como alternativa a esses sistemas, Kant considera uma lei universal de natureza espiritual, independente de nosso mundo, relacionada à liberdade da alma e suas relações com os demais seres. Uma lei natural, como a gravidade, não diz o que se deve ou não fazer, mas demonstra as regras que regem naturalmente as consequências dos movimentos. A Natureza não nos diz se devemos pular ou não de uma elevação. Mas, por experiência, podemos adquirir o conhecimento sobre qual altura é segura e a partir de onde o salto causa lesão ou é fatal. Também podemos adquirir uma habilidade de saltar de mais alto seguramente, treinando. Mesmo que não saibamos exatamente quais são as leis do mundo dos espíritos, por analogia compreendemos que ela não determina de qual maneira alguém deve agir ou o que é proibido. Mas, sabendo que ela existe, podemos desenvolver o conhecimento e a habilidade de fazer uso da vontade e da liberdade em harmonia com as leis morais em busca da perfeição, pois, diferentemente dos animais, podemos escolher o nosso fim. Sabendo que se todos agirem assim numa comunidade, a liberdade e a possibilidade de ser feliz estará ao alcance de todos e o desejo de alcançar essa condição futura faz nosso ato moral ser voluntário ou autônomo. 

Se for possível a conquista futura dessa sociedade ideal, como Deus está fora do tempo, Ele já sabe disso. Então não precisa premiar, castigar ou perdoar os seres que criou, porque sabe que todos conquistarão a plenitude da harmonia universal. Compreender essa harmonia e fazer uso hábil dela em sua relação com os outros seres é o fundamento da felicidade dos bons espíritos, da mesma forma que ao compreender a natureza do fogo e da energia construímos todo o conforto e bem-estar físico da vida moderna. Dessa forma, a razão tem dois objetivos: conquistar conhecimento teórico e também as virtudes práticas. 

Paulo Henrique de Figueiredo, no livro "Revolução Espírita - A teoria esquecida de Allan Kardec", capítulo 3.4.3 - Sonhos de um visionário.

 

LULA: A VISÃO DE UMA ANARQUISTA

Publicado originalmente A.Q.U.I.

Nunca votei no Lula. Também não votei em Dilma. Nem em Fernando Henrique, nem em Collor. Não votei, porque sou anarquista. O que é ser anarquista? É ter consciência de que os sistemas de governo – todos, incluindo a democracia e incluindo os sistemas pretensamente socialistas que tivemos na história recente – estão sempre a serviço de alguma classe, de alguns privilegiados. O Estado é mantido pela violência militar e policial, que pode ser usada a qualquer momento contra o próprio povo ou contra outros povos. E sempre a serviço de interesses de grupos. No caso da democracia atual, ela está a serviço dos bancos, das corporações, dos lobbies, das elites locais e das elites internacionais. Em momentos menos ruins, sobram alguns direitos a mais para o povo. Em algumas tradições de construção estatal, com mais tempo sob influência de ideias sociais e igualitárias, como alguns países da Europa, houve maior oportunidade para o povo adquirir mais educação e um tanto mais de direitos – mas que agora estão sendo retirados em toda parte.

Em todas as democracias do planeta, é o dinheiro do capital que financia os políticos que, portanto, estão a serviço do capital. Se aqui temos uma Odebrecht, nos EUA, temos por exemplo uma indústria bélica, com que os governos “eleitos democraticamente” estão comprometidos até o pescoço. Já o grande anarquista norte-americano Henry Thoreau, no século XIX, negava-se a pagar impostos, porque o dinheiro seria usado para armamentos e guerras expansionistas, que desde aquela época era a política externa do seu país.

Para entrar no jogo político, portanto, ser eleito, governar e fazer acordos, usa-se dinheiro. O dinheiro corrompe princípios, compra pessoas, atende a interesses de grupos e não aos interesses da coletividade.

Assim, nunca me iludi que o PT pudesse manter uma pureza de vestal, ao entrar no jogo do poder e realmente governar. Por isso, nunca votei no PT.

Mas, dentro dessa realidade de como funciona a democracia, por que se escolheu agora fazer uma cruzada inquisitorial, para varrer a corrupção na política? Por que se derrubou o governo Dilma e se persegue com voracidade a pessoa do Lula? Por que Lula está sendo acusado (ainda sem nenhuma prova e com uma orquestração odienta da mídia em peso) de ter um apartamento triplex no Guarujá e Fernando Henrique, sob cujo governo havia os mesmos esquemas de corrupção endêmica no Brasil, não está sendo investigado por seu apartamento em Paris?

Por que há uma multidão no Brasil espumando de ódio contra um homem de 70 anos, querendo sua prisão, como fanáticos inquisidores queriam eliminar as bruxas? Por que se cuspiu na dignidade de uma mulher como Dilma, que não teve até agora nenhum crime comprovado – quando o congresso nacional e esse governo ilegítimo estão tomados de corruptos já mencionados em todas as investigações em curso?

Por três motivos principais:

1) Porque por mais que os governos do PT tivessem adotado a famosa governabilidade – que significa a composição com as forças econômicas e políticas que desde sempre comandam o país, ainda havia nesses governos uma preocupação com o social e um impedimento de se implementar plenamente o programa neoliberal selvagem a que estamos sendo submetidos desde o golpe. Acabar com todos os direitos trabalhistas, esvaziar ainda mais a já combalida educação pública, arrancar dinheiro da saúde, da previdência e da educação, sem mexer um milímetro com os juros exorbitantes dos bancos e com os impostos devidos pelos ricos… Isso só poderia ser feito por um governo que não foi eleito e que está a serviço desse projeto de neoliberalismo selvagem, que aliás é um projeto internacional.

2) Porque enquanto esses direitos são tirados do povo, a mídia, alimentada em primeira mão pela republiqueta de Curitiba e em conluio com ela, montou um circo inquisitorial, em que o principal bode expiatório é o Lula, com seu suposto e patético triplex. Oferece-se alguém ou um grupo para se odiar, com linchamentos públicos diários, e o povo deixa vir à tona seus instintos mais primitivos, enquanto lhe surrupiam os direitos e a nação. Técnica muito conhecida pelos nazistas e descrita por George Orwell em 1984! Não por acaso, nesse livro é que aparece a figura mediática do Grande Irmão (Big Brother)… Lembra alguma coisa?

3) Porque o Brasil era uma economia ascendente – participante do Brics (grupo composto pelas chamadas economias emergentes, Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul) e economias emergentes devem ser cortadas pela raiz pelo Império dominante no planeta. Gera-se então uma crise artificial, produz-se descontentamento popular e faz-se cair o governo que causa incômodo àqueles que de fato mandam no mundo. E mais, o Brasil, com seus recursos naturais de petróleo e água, não pode crescer com seus recursos. Eles devem ser transferidos aos donos do mundo. Entre as primeiras ações do governo golpista foi a de entregar o pré-sal ao capital estrangeiro.

E toda essa trama que parece maquiavélica e é maquiavélica sim (aliás, uma leitura esclarecedora é O Príncipe de Maquiavel, para vermos como o poder se comporta em todos os tempos) é possível pela alienação do povo e por seu desejo de odiar alguém, em que pode depositar suas frustrações e sua agressividade. Lula é o objeto perfeito para esse ódio, porque muita gente jamais aceitou que um operário, um “analfabeto”, chegasse ao poder…. Por isso tantos acham normal Fernando Henrique ter um apartamento em Paris, mas babam de raiva com um suposto triplex de Lula no Guarujá. Esse menino nordestino saiu do lugar da senzala a que são destinados os de sua classe social. E não vi ninguém espumando contra a Odebrecht, que participou da corrupção de todos os governos….

E por fim, como anarquista e como espírita e cristã, não me apraz ver ninguém, nem Lula, nem qualquer outro político, de qualquer partido, seja José Dirceu, Sérgio Cabral ou Eduardo Cunha (de quem tinha verdadeiro horror quando comandava o Congresso), nenhum ser humano, seja criminoso ou não, ser humilhado, com sua dignidade arrancada. Esse sistema de suposta justiça que temos no mundo, e ainda mais no Brasil com seu sistema carcerário indecente, é na verdade um sistema de vingança social. Não se quer consertar a ação maléfica e melhorar quem a praticou, mas punir sadicamente o indivíduo, satisfazendo um anseio de extermínio do outro. Pessoas diante de um tribunal, culpadas ou não, e pessoas encarceradas, em prisões decentes ou não, me causam compaixão e empatia e não satisfação.

Por tudo isso e mais um pouco, digo o seguinte: nunca votei no Lula e nunca votei em nenhum presidente. Mas se esse homem, que cresceu aos meus olhos, pela perseguição implacável que vem sofrendo, conseguir sobreviver ao massacre e se levantar de novo como candidato em 2018, terá finalmente meu voto.

Por Dori Incontri autora de Filosofia: construindo o pensar em parceria com Alexandre César Bigheto dentre outras obras. 

VOCAÇÃO

A vocação é a soma dos reflexos da experiência que trazemos de outras vidas.

É natural que muitas vezes sejamos iniciantes, nesse ou naquele setor de serviço, diante da evolução das técnicas de trabalho que sempre nos reclamam novas modalidades de ação; todavia, comumente, retomamos no berço a senda que já perlustramos, seja para a continuação de uma obra determinada, seja para corrigir nossos próprios caminhos.


De qualquer modo, o titulo profissional, em todas as ocasiões, é carta de crédito para a criação de reflexos que nos enobreçam.

O administrador, o juiz, o professor, o médico, o artista, o marinheiro, o operário e o lavrador estão perfeitamente figurados naquela parábola dos talentos de que se valeu o Divino Mestre para convidar-nos ao exame das responsabilidades próprias perante os empréstimos da Bondade Infinita.


Cada espírito recebe, no plano em que se encontra, certa quota de recursos para honrar a Obra Divina e engrandecê-la. Acontece, porém, que, na maioria das circunstâncias, nos apropriamos indebitamente das concessões do Senhor, usando-as no jogo infeliz de nossas paixões desgovernadas, no aloucado propósito de nos antepormos ao próprio Deus. 

Daí a colheita dos reflexos amargos de nossa conduta, quando se nos desgasta o corpo terrestre, com o doloroso constrangimento do regresso às dificuldades do recomeço, em que o instituto da reencarnação funciona com valores exatos. E como cada região profissional abrange variadas linhas de atividade, o juiz que criou reflexos de crueldade, perseguindo inocentes, costuma voltar ao mesmo tribunal, onde exercera as suas luzidas funções, com as lágrimas de réu condenado injustamente, para sofrer no próprio espírito e na própria carne as flagelações que impôs, noutro tempo, a vítimas indefesas. O médico que abusou das possibilidades que lhe foram entregues, retorna ao hospital que espezinhou, como apagado enfermeiro, defrontado por ásperos sacrifícios, a fim de ganhar o pão. O grande agricultor que dilapidou as energias dos cooperadores humildes que o Céu lhe concedeu, para os serviços do campo, vem, de novo, à gleba que explorou com vileza de sentimento, na condição de pobre lidador, padecendo o sistema de luta em que prendeu moralmente as esperanças dos outros. Artistas eméritos, que transformaram a inteligência em trilho de acesso a desregramentos inconfessáveis, reaparecem como anônimos companheiros do pincel ou da ribalta, debaixo de inibições por muito tempo insolúveis, à feição de habilidosos trabalhadores de última classe. Mulheres dignificadas por nomes distintos, confiadas ao vicio e à dissipação, com esquecimento dos mais altos deveres que lhes marcam a rota, freqüentemente voltam aos lares que deslustraram, na categoria de ínfimas servidoras, aprendendo duramente a reconquistar os títulos veneráveis de esposa e mãe... 

E, comumente, de retorno suportam preterição e hostilidade, embaraços e desgostos, por onde passem, experimentando sublimes aspirações e frustrações amargosas, porquanto é da Lei venhamos a colher os reflexos de nossas próprias ações, implantados no ânimo alheio, retificando em nós mesmos o manancial da emoção e da idéia, para que nos ajustemos à corrente do bem, que parte de Deus e percorre todo o Universo para voltar a Deus.

Francisco Cândido Xavier pelo espírito Emmanuel no livro 
"Pensamento e Vida".


DIANTE DE DEUS E DE CÉSAR


Em nosso relacionamento habitual com César — simbolizando o governo político — não nos esqueçamos de que o mundo é de Deus e não de César, a fim de que não sejamos parasitas na organização social em que fomos chamados a viver.  

Muitos se acreditam plenamente exonerados de quaisquer obrigações para com o poder administrativo da Terra, simplesmente porque, certo dia, pagaram à máquina governamental que os dirige os impostos de estilo, exigindo-lhe em troca serviços sacrificiais por longo tempo. 

É justo não olvidar que somos de Deus e não de César e que César não dispõe de meios para substituir junto de nós a assistência de Deus. 

Por isso mesmo, a Lei, expressando as determinações do Alto, conta com a nossa participação constante no bem, se nos propomos alcançar a vitória com o progresso real. (grifo nosso).

Examinando o assunto nestes termos, ouçamos a voz do Senhor que nos fala na acústica da própria consciência e procuremos a execução de nossos deveres sem esperar que César nos visite com exigências ou aguilhões. 

O trabalho é regulamento da vida e cultivemo-lo com diligência, utilizando os recursos de que dispomos na consolidação do melhor para todos os que nos cercam. 

Auxiliar aos outros é recomendação do Céu e em razão disso, auxiliemos sempre, seja amparando a um companheiro infeliz, protegendo uma fonte ameaçada pela secura ou plantando uma árvore benfeitora que amanhã falará por nós à margem do caminho. 

Todos prestaremos contas à Divina Providência quanto aos bens que nos são temporariamente emprestados e, sem qualquer constrangimento da autoridade humana, exercitemos a compreensão e a bondade, a paciência e a tolerância, o otimismo e a fé, apagando os incêndios da rebelião ou da crítica onde estiverem e estimulando, em toda parte, a plantação de valores suscetíveis de estabelecer a harmonia e a prosperidade em torno de nós. 
Não vale dar a César algumas moedas por ano, cobrindo-o de acusações e reprovações, todos os dias. 

Doemos a Deus o que é de Deus, oferecendo o melhor de nós mesmos, em favor dos outros, e, desse modo, César estará realmente habilitado a amparar-nos e a servir-nos, hoje e sempre, em nome do Senhor.

Francisco Cândido Xavier pelo espírito Emmanuel no livro "Dinheiro", capítulo 8, publicado em janeiro de 1986.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

EXAME DE VIRTUDE


Narra-nos um episódio autêntico que certo orientador do mundo israelita enviou um discípulo, que se notabilizara na interpretação dos Profetas, para determinada cidade, cujos habitantes se chafurdavam em vícios e enfermidades de toda espécie, com a recomendação de prestar-lhes concurso ativo.

Dois lustros correram, e porque as notícias do burgo fossem cada vez mais inquietantes, o guia do povo chamou o enviado, que compareceu, em atitude hierática, mostrando, na túnica lirial e no semblante mortificado de jejuns, a rigorosa observância da Lei.

Às primeiras interpelações ouvidas, respondeu, em tom grave:

- Mestre, para dar exemplo de virtude, retirei-me para o campo, onde todos sabem que existo.

- Compreendo – disse o mentor -, a solidão é necessária para que o pensamento se refaça com a inspiração divina; contudo, sem ligação com as criaturas humanas, é impraticável qualquer obra de auxílio.

E o entendimento continuou:

- Para não errar, vivo em completo mutismo, no fervor da oração.

- Medida essencialmente importante, mas, ainda que tenhamos de aprender em duras experiências, é preciso falar para que o bem seja feito.

- Expondo a pureza dos meus sentimentos, visto-me exclusivamente de branco...

- Costume honroso; no entanto, isso não deve impedir que nossa roupa se enodoe no trabalho de ajuda aos outros, para ser novamente lavada em momento oportuno.

Minhas refeições são apenas de ervas.

- Hábito excelente; contudo, para trazer o corpo em condições de servir, é importante não desertar dos sistemas da alimentação comum, embora seja nossa obrigação garantir a simplicidade e fugir aos desregramentos, usando a carne, o leite, os ovos, as folhas, os frutos e as raízes dos animais e das plantas, tão somente na quota indispensável à manutenção da existência.

- Durmo sem qualquer agasalho, fustigando as tendências inferiores...

- Louvável propósito, mas, na preservação da saúde orgânica, é justo repousar, nos moldes em que os outros descansam, a fim de que a vida no corpo nos ofereça rendimento para o melhor.

- Faço, porém, muito mais... Tenho o leito eriçado de pregos, castigando a volúpia da carne...

- Nobre intento, sem dúvida... Entretanto, vale mais combater a nós mesmos, na prestação de serviço ao próximo, para que a nossa luta não seja vã...

Silenciando o pupilo, indagou o chefe:

- E a tarefa de que te incumbiste?

- Mestre – replicou o mensageiro, desapontado -, sinceramente devo dizer que os cuidados na apresentação da virtude me tomam o tempo todo...

Nisso, belo cavalo de alvo pelo entrou no átrio da casa, conduzindo pobre ferido, cujas últimas energias o deserto esgotara...

O velho orientador comandou as providências iniciais de socorro e, trazendo o discípulo à frente do soberbo animal que escavava o solo, falou com bondade:

- Pois olha, meu filho, este cavalo igualmente mora no retiro da Natureza, não se expressa em linguagem humana, veste-se todo em cabelos cor de neve, come apenas a erva do chão, dorme ao relento, é calçado de cravos perfurantes e não passa de um cavalo...

Mesmo assim, é o companheiro dos viajantes fatigados e, ainda agora, acaba de arrebatar um mercador prestimoso à sepultura de areia...

Em seguida, demandou o interior para confortar o recém-chegado, deixando o aprendiz a meditar quanto à vontade da virtude vazia.

Francisco Cândido Xavier pelo espírito 
Irmão X no livro "Contos desta e doutra vida".


EDUCAÇÃO DA MEDIUNIDADE

Sendo a faculdade mediúnica inerente a uma disposição orgânica, semelhante às outras responsáveis pelas manifestações sensoriais, deverá ser educada com cuidados especiais, a fim de bem desempenhar a função para a qual a Divindade dotou os seres humanos.

Concedida a todos os seres humanos, sem privilégio de etnia, de carácter, de fé religiosa, de condição socioeconômica, representa uma alta concessão, que faculta o conhecimento da imortalidade do espírito, assim como das consequências morais resultantes da conduta existencial.

De igual maneira como se educam os sentidos físicos e as faculdades intelectuais, disciplinando o comportamento moral, a mediunidade, que desempenha relevante papel na vida humana, requer desvelos e condutas específicos, para que possa contribuir eficazmente em favor da harmonia do indivíduo e do seu incessante progresso espiritual.


Demitizada pelo Espiritismo, que esclareceu os falsos atributos divinatórios e especiais com que a vestiam, torna-se instrumento precioso para o bem-estar, a saúde e a paz, na condição de recurso próprio para a auto iluminação e a libertação do primarismo ainda persistente naquele que a possui.

Causa estranheza, não poucas vezes, encontrar-se a mediunidade ostensiva em pessoas de conduta reprochável, enquanto outras, dignas e corretas, dela não se fazem possuidoras com a mesma intensidade.

Essa visão proporciona aos incautos o conceito de que a mediunidade independe da moral do indivíduo, o que é certo, enquanto que a qualidade das comunicações não se subordina ao mesmo raciocínio.
Isto porque os espíritos comunicam-se por meio de quaisquer instrumentos, valendo ser lembrado que as primeiras comunicações que precederam ao surgimento do Espiritismo deram-se através de recursos muito primários, com o objetivo de chamar a atenção, logo passando àqueles de natureza transcendental e elevada.

Na ocasião, fazia-se necessário assim apresentar-se o fenômeno, considerando-se que, noutras épocas, em face da naturalidade com que ocorriam e da sua multiplicidade, foram mal interpretados.

Mediante esse recurso algo primitivo, foi necessário o estudo sério e a busca da causalidade do fenômeno, quando os próprios espíritos encarregaram-se de definir-se e elucidar com sabedoria a ocorrência.

Os indivíduos maus, orgulhosos e corrompidos apresentam-se, portanto, com faculdades ostensivas por misericórdia do amor, a fim de que sejam, eles mesmos, os instrumentos das advertências e orientações de que necessitam para uma existência de retidão e de equilíbrio, com alto discernimento a respeito dos objetivos da caminhada terrestre.

Permanecendo nos vícios a que se entregam, voluntariamente, tornam-se mais responsáveis pelos atos danosos que os prejudicam, padecendo-lhes as consequências lamentáveis.

Advertidos sobre a transitoriedade do carro material de que se utilizam, não terão como justificar-se ante a própria consciência pela leviandade que se permitiram, assumindo as graves responsabilidades morais em relação ao futuro.

Somente através do conhecimento lúcido e lógico da mediunidade, mediante o estudo de O Livro dos Médiuns, de Allan Kardec, é que se deve permitir o candidato à educação da sua faculdade, ao aprimoramento pessoal, iniciando, então, o exercício dessa disposição orgânica profundamente arraigada nos valores morais do Espírito.

Uma das primeiras providências a ser tomada em relação a esse programa iluminativo diz respeito à auto análise que se deve propor o interessado, trabalhando as imperfeições do carácter, os conflitos comportamentais, lutando pela transformação moral para melhor no seu mundo interior.

Esse esforço, no entanto, não se aplica a um certo período da vida, mas a toda a existência, porquanto, à medida que se avança no rumo da ascensão, melhor visão interna se possui a respeito de si mesmo.

Quanto mais esclarecida a pessoa se encontra, mais facilmente observa as imperfeições que possui, dando-se conta de que necessita ampliar o esforço, a fim de as superar.


O contato com os Espíritos em equilibrada frequência faculta a percepção da lei dos fluidos, mediante a qual torna-se factível a identificação dos comunicantes, em decorrência das sensações e das emoções experimentadas.

Cada comunicante é portador de vibrações especiais, assim como ocorre na Terra, caracterizando-se cada qual por determinados hábitos e mesmo pelos seus condicionamentos.

A observação do conteúdo das mensagens também é de salutar efeito, analisando-o e aplicando-o em si mesmo, quando expresse orientação e direcionamento propiciadores de felicidade.

Os médiuns sérios devem sempre aceitar para eles próprios, em primeiro lugar, as mensagens de que se fazem instrumento, assim aprimorando-se e crescendo na direção do Bem.

À medida que se tornam maleáveis às comunicações, essas mais expressivas se fazem, proporcionando melhor qualidade de filtragem do pensamento que lhes é transmitido.

Colocada a serviço do Bem, a disciplina e a ordem são fundamentais para o seu mais amplo campo de realizações, porquanto a mediunidade não pode constituir-se estorvo à vida normal do cidadão, nem instrumento de interesses escusos sob a falsa justificativa da aplicação do tempo que lhe é dedicado.

O aprofundamento das reflexões, alcançando o patamar da concentração tranquila, faculta a ideal sintonia com os espíritos que se comunicarão, diminuindo a interferência das fixações mentais, dos conflitos perturbadores, melhor exteriorizando o pensamento e os sentimentos dos comunicantes.

A tranquilidade emocional, defluente da consciência de que se é instrumento e não autor das informações, é fundamental, tornando-se simples e natural, sem as extravagantes posturas de que são seres especiais que se atribuem ou emissários irretocáveis da verdade, merecedores de tratamento superior durante o seu trânsito pelo mundo físico...

João, o batista, proclamou, em referência a Jesus: "É necessário que Ele cresça e que eu diminua".

O exemplo deve ser aplicado aos médiuns que desejam alcançar as metas ideais do seu exercício, considerando-se apenas como instrumentos que diminuem de importância enquanto a mensagem cresce e expande-se.

A busca atormentada da notoriedade, da fama, do exibicionismo, constitui terrível chaga moral, que o médium deve cicatrizar mediante a terapia da humildade e do trabalho anônimo.

Desse modo, a arrogância, a presunção, a vaidade que exaltam o ego diminuem a qualidade dos ditados mediúnicos de que se faz portador aquele que assim se mantém.

Prosseguir com naturalidade a experiência reencarnatória, sendo agradável e gentil, vivendo com afabilidade e doçura, de modo a se tornar seguro intermediário dos Espíritos nobres e bons, que preferem eleger aqueles que se lhes assemelham ou que se esforçam por melhorar-se cada vez mais, é dever impostergável.

O bom médium, desse modo, conforme esclareceu Allan Kardec, "não é aquele que comunica facilmente, mas aquele que é simpático aos bons Espíritos e somente deles tem assistência". (O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. XXIV, Item 12.)

Combater o ego e os seus parceiros, para dar sentido aos valores espirituais, é, sem dúvida, conduta salutar, no processo da educação mediúnica e por toda a existência.

No sentido oposto, quando a faculdade mediúnica não recebe a consideração nem os cuidados que lhe são devidos, não desaparece, antes permanece à mercê dos Espíritos frívolos, irresponsáveis ou perversos que se comprazem, utilizando-a para fins ignóbeis com os quais o intermediário anui, culminando em transtornos emocionais graves, enfermidades simulacros que proporcionam assimilação de agentes orgânicos destrutivos ou de obsessões de longo curso...

De bom alvitre, portanto, será que todos os indivíduos portadores de mediunidade ostensiva ou natural esmerem-se e penetrem-se de responsabilidade, adquirindo afinidade com os Mensageiros da Luz, na grande obra de regeneração da sociedade e do Planeta a que eles se vêm entregando com abnegação e devotamento.






Divaldo Pereira Franco pelo espírito Manoel Philomeno de Miranda no livro "Mediunidade: desafios e bênçãos".









DUAS ÉPOCAS DE ESPIRITUALIDADE

Meus caros filhos, Deus abençoe a vocês todos, conferindo-lhes muita paz e alegria na sementeira do progresso e do bem.

Vivendo o nosso lar pátrio horas difíceis, creiam que constitui para mim uma verdadeira bênção observar-lhes o recanto de trabalho e de harmonia. No Brasil, por enquanto, relevem-me vocês o comentário confidencial, existem duas épocas de espiritualidade atormentada. A primeira é a do Carnaval e a segunda é a da política, quando se faz acompanhar por eclosões apaixonadas nas disputas eleitorais periódicas. 

Tão grande antagonismo assinala ambas as palavras que nos sentimos acanhados ao enunciar a presente conceituação. Somos, contudo, uma agremiação nacional muito nova e, por enquanto, os dois períodos a que me reporto estão caracterizados, em nosso modo provisório de ser, por muitas paixões em franco desvairamento. Almas de máscara vagueiam nas mais diversas direções e a caça aos prazeres e aos postos gera dissidências sinistras e dramas ocultos que não vale a pena investigar. Refiro-me ao assunto para render graças ao Senhor em companhia de vocês por nos haver concedido abençoada permanência neste campo de harmonia e de amor, em cuja intimidade podemos comungar com as silenciosas lições da natureza. Daqui, do santuário verde e tranquilo em que nossos pensamentos residem juntos, roguemos a Jesus estenda o seu manto de luz sobre a nossa gente para que o dia não destrua tanta lavoura do bem iniciante em obras admiráveis, no plano evolutivo, através das quais podemos verificar as probabilidades do futuro. Em posições coletivas, qual a que enfrentamos, todo cuidado nas manifestações pessoais merece valiosa intensificação à face dos ânimos aparentemente serenados, mas inquietos no fundo, onde os caprichos de poderosas individualidades e grupos enormes se acham em expectação aflitiva e imanifesto desespero. Tememos distúrbios e perturbações, e cabe-nos a projeção viva e ativa dos poderes da oração, em favor do bem comum. 


E em nos reportando ao nosso iluminado campo cheio de árvores e flores devo dizer a vocês que muitos companheiros desencarnados são trazidos até aqui para que novas facilidades da nossa Esfera lhes auxiliem o necessário reajustamento. Quando a terra se mantém sem o concurso do homem, é quase impraticável estabelecermos o serviço de socorro na paisagem inculta, de vez que aí não dispomos de recursos educados para o ministério do bem que nos cabe executar. Quando, porém, o solo pode contar com a colaboração inteligente e humana, o serviço espiritual pode lançar nele raízes benfeitoras e sólidas. Aqui, quase sempre, há entidades em refazimento por dias e dias consecutivos, fortalecendo-se para a caminhada. 

Hoje tive a satisfação de trazer a nossa Marcelina. Precisa receber novas “injeções” de energia vitalizante para o organismo perispiritual. Está admirada com a beleza da paisagem, quase irreconhecível agora ao seu olhar. Bendiz o trabalho terrestre que lhe colocou o espírito em contato com a afeição de vocês e tem para todas as particularidades do novo meio uma risonha e comovida expressão de carinho e de prece.

Embora pareça estranho o remédio a vocês, a nossa venerável amiga aqui receberá certa medicação, destinada ao revigoramento, através da condensação de perfumes. Eu não sei se vocês já meditaram sobre o destino do perfume produzido na Terra. Conhecem que as águas têm utilidade imediata na sustentação da vida física, que o ar é básico na estruturação e alimentação de todos os seres vivos, que a terra possui aplicações especiais com todas as suas reservas imensas… Mas e as emanações das plantas? Sabemos no mundo tanto a respeito dessas “ondas balsâmicas” de plantas e flores como sabemos das “ondas mentais” de nosso próprio pensamento. O aroma, porém, se reveste de muita importância para as Esferas imediatas ao meio de progresso do homem, mormente para as entidades que abandonaram recentemente a carne. Um dia, talvez, não remoto, a própria ciência do planeta saberá distribuir com o perfume a vida e o refazimento, e se o Alto ainda não autorizou maior amplitude de ação à inteligência do homem nesse setor da experiência terrestre, é que todo progresso é arma de dois gumes. Pela inteligência apurada, há elevação e queda, glória ou decadência, porquanto a solução da prosperidade real e eterna resultará do problema de direção. O perfume que contém princípios sublimes para restaurar o tecido vital do corpo denso e do perispírito pode igualmente ser o portador da morte, segundo a aplicação que lhe dermos. Por agora, pois, baste a vocês a boa notícia de que a nossa inolvidável amiga permanece melhor e com alguns dias de estágio por aqui restabelecer-se-á muito mais depressa. Há companheiros recém-desencarnados que necessitam de fluidos ou perfumes do mar, enquanto que outros reclamam as irradiações ou aromas do campo. Tudo é belo e sublime na Criação. Nada se perde. Alguns gramas de pão se transformam em energia para a reconstituição do corpo de carne; algumas gotas de óleo podem ser convertidas em sublimadas emanações de luz na reestruturação de certas forças da vida e da natureza, e algumas flores podem realizar milagres com as ondas invisíveis de força que projetam no lugar em que vivem. 


A glória de Deus é uma coroa divina que fulgura nos seres mais humildes e apagados do Universo, tanto quanto brilha na fronte dos anjos. Que o Senhor conceda a vocês muita paz, alegria e luz. Esperando que as bênçãos dele, nosso divino Mestre, nos fortifiquem o espírito em todos os passos da senda, reúne-os num apertado e grande abraço o papai reconhecido e afetuoso de sempre.


Francisco Cândido Xavier pelo espírito A. Joviano (Neio Lúcio), no livro "Colheita do bem - mensagens familiares do Prof. Arthur Joviano e outros, publicado em setembro de 1950.