Introdução

Há muito o que ser aprendido. Há muito o que podemos extrair do que vemos, tocamos, ouvimos, e acima de tudo, sentimos. Nossa sabedoria vem dos retalhos que vamos colhendo ao longo de nossa evolução, que os leva a formar a colcha que somos. Esse espaço é para que eu possa compartilhar das luzes que formam o que Eu tenho sido!!!

sábado, 27 de outubro de 2018

O PARTIDO ESPÍRITA


Bem que os espíritas se consideravam uma escola filosófica, mas nunca lhes tinha vindo à mente se julgar um partido. Ora, eis que um belo dia o Moniteur lhes dá esta notícia, que os surpreendeu um pouco. E quem foi que lhes deu esta qualificação? Foi um desses jornalistas inescrupulosos, que lançam epítetos ao acaso, sem lhes compreender o alcance? Não; é um relatório oficial, feito ao primeiro corpo do Estado, ao Senado. Assim, não é provável que, num documento dessa natureza, essa palavra tenha sido pronunciada levianamente. Sem dúvida não foi a benevolência que a ditou, mas foi dita e faz sucesso, porque os jornais não a deixaram cair. Alguns, crendo aí encontrar um agravo a mais contra o Espiritismo, nada tiveram de mais urgente do que estampar em suas colunas o título de: O Partido Espírita.

Assim, esta pobre escolinha, tão ridicularizada, tão humilhada, que caridosamente pretendiam enviar em massa ao hospício; sobre a qual diziam que bastava soprar para que ela desaparecesse; que vinte vezes a declararam morta e para sempre enterrada; à qual não há mais fino escritor hostil que não se tenha gabado de lhe haver dado o golpe de misericórdia, mas concordando, com estupefação, que ela invadia o mundo e todas as classes da sociedade; da qual quiseram, a todo custo, fazer uma religião, gratificando-a com templos e sacerdotes, grandes e pequenos, que ela jamais viu, ei-la de repente transformada em partido. Por esta qualificação, o Sr. Genteur, o relator do Senado, não lhe deu o seu verdadeiro caráter, mas a exaltou; deu-lhe uma posição, um lugar, pondo-a em evidência. Porque a ideia de partido implica a de uma certa força, de uma opinião bastante importante, bastante ativa e bastante espalhada para representar um papel, e com a qual é preciso contar. 

Por sua natureza e por seus princípios, o Espiritismo é essencialmente pacífico; é uma ideia que se infiltra sem ruído, e se encontra numerosos aderentes, é que agrada; jamais fez propaganda nem exibições quaisquer; forte pelas leis naturais, nas quais se apoia, vendo-se crescer sem esforços nem abalos, não vai ao encontro de ninguém, não violenta nenhuma consciência; diz o que é e espera que a ele venham. Todo o ruído que se fez a sua volta é obra de seus adversários; atacaram-no, ele teve que se defender, mas sempre o fez com calma, moderação e só pelo raciocínio; jamais se afastou da dignidade que é própria de toda causa que tem consciência de sua força moral; jamais usou de represálias, pagando injúria por injúria, maus procedimentos por maus procedimentos. Hão de convir que não é este o caráter ordinário dos partidos, turbulentos por natureza, fomentando a agitação e a quem tudo é bom para chegar aos fins. Mas, já que lhe dão este nome, ele o aceita, certo de que não o desonrará por qualquer excesso, pois repudiaria quem quer que dele se prevalecesse para suscitar a menor perturbação. 

O Espiritismo seguia sua rota sem provocar qualquer manifestação pública, mas aproveitando a publicidade que lhe faziam os seus adversários; quanto mais a sua crítica era zombeteira, acerba e virulenta, tanto mais excitava a curiosidade dos que não o conheciam e que, para saberem como proceder diante dessa assim chamada nova excentricidade, iam simplesmente informar-se na fonte, isto é, nas obras especiais; estudavam-no e encontravam outra coisa do que tinham ouvido dizer. É um fato notório que as declamações furibundas, os anátemas e as perseguições ajudaram poderosamente a sua propagação, porque, em vez de lhe desviar a atenção, provocaram o seu exame, ainda que fosse pela atração do fruto proibido. As massas têm sua lógica; elas se dizem que se uma coisa nada fosse, dela não falariam, e medem a sua importância precisamente pela violência dos ataques de que é objeto e pelo pavor que causa aos seus antagonistas. 

Instruídos pela experiência, certos órgãos de publicidade se abstinham de falar dele, bem ou mal, evitando mesmo pronunciar o seu nome, para não lhe dar repercussão, limitando-se, de vez em quando, a lhe lançar alguns ataques violentos às escondidas, quando uma circunstância o punha forçosamente em evidência. Alguns também guardaram silêncio, porque a ideia tinha penetrado em suas fileiras e, com ela, se não talvez a convicção, pelo menos a hesitação. 

Então a imprensa em geral se calava sobre o Espiritismo, quando uma circunstância, que não poderia ser obra do acaso, a obrigou a falar dele. E quem provocou o incidente? Sempre os adversários da ideia que, ainda dessa vez, se equivocaram, produzindo um efeito totalmente contrário ao que esperavam. Para dar mais repercussão ao seu ataque, conduzem-no com pouca habilidade, não no terreno de uma folha sem caráter oficial e cujo número de leitores é limitado, mas por via de petições à própria tribuna do Senado, onde ela é objeto de discussão e de onde saiu a expressão de partido espírita. Ora, graças aos jornais de todas as colorações, obrigados a notificar o debate, a existência desse pequeno partido foi revelada instantaneamente a toda a Europa e além. 

É verdade que um membro da ilustre assembleia disse que não havia senão patetas que fossem espíritas, ao que o presidente respondeu que os tolos também podiam formar um partido. Ninguém ignora que hoje os espíritas se contam por milhões, e que altas notabilidades simpatizam com suas crenças; é, pois, de admirar que um epíteto tão pouco cortês e tão generalizado tenha saído daquele recinto, dirigido a notável parte da população, sem que o autor tenha refletido até onde ele atingia. 

De resto, os próprios jornais se encarregaram de desmentir tal qualificação, certamente não por benevolência, mas, que importa! O jornal Liberté, entre outros, que aparentemente não quer que se seja livre de ser espírita, como se o é de ser judeu, protestante, são-simonista ou livre-pensador, publicou, em seu número de 13 de junho, um artigo assinado por Liévin, do qual eis um extrato:


“O Sr. Genteur, comissário do governo, revelou ao Senado a existência de um partido que não conhecíamos, e que, como os outros, parece contribuir, no limite de suas forças, para abalar as instituições do império.” Sua influência já se fizera sentir o ano passado, e o partido espírita — nome que lhe deu o Sr. Genteur — tinha obtido do Senado, sem dúvida graças à sutileza dos meios de que dispõe, a remessa ao governo da famosa petição de Saint-Etienne, na qual eram denunciadas, como se lembram, não as tendências materialistas da Escola de Medicina, mas as tendências filosóficas da biblioteca da comuna. Até aqui tínhamos atribuído ao partido da intolerância a honra desse sucesso, e o considerávamos por si como uma consolação por seu último revés; mas parece que nos tínhamos enganado e que a petição de Saint-Etienne não passava de uma manobra desse partido espírita, cujo poder oculto parece querer exercer-se mais particularmente em detrimento das bibliotecas. 

“Assim, segunda-feira o Senado ocupava-se de uma nova petição, na qual o partido espírita, levantando ainda a cabeça, denunciava as tendências da biblioteca de Oullins (Rhône). Mas desta vez a venerável assembleia, posta em guarda pelas revelações do Sr. Genteur, frustrou os cálculos dos espíritas, por uma unânime ordem do dia. Apenas o Sr. Nisard se deixou apanhar mais ou menos por esta astúcia de guerra, e de boa-fé estendeu a mão a esses pérfidos inimigos. Deu-lhes o apoio de um parecer em que, por sua vez, assinalava os perigos dos maus livros. Felizmente o equívoco do honrado senador não foi partilhado e os espíritas, arrependidos e confusos, foram reconduzidos como mereciam.”

Um outro jornal — Revue politique hebdomadaire — de 13 de junho, assim começa um artigo sobre o mesmo assunto:

“Ainda não conhecíamos todos os nossos perigos. Caso se acredite no Constitutionnel, não eram bastantes os partidos legitimista, orleanista, republicano, socialista, comunista e o partido vermelho, sem contar o partido liberal, que os resume todos? Era mesmo sob o segundo império, cuja pretensão é dissolver todos os partidos, que devia nascer um novo partido, crescer e ameaçar a sociedade francesa, o partido espírita? Sim, o partido espírita! Foi o Sr. Genteur, Conselheiro de Estado, quem o descobriu e que o denunciou em pleno Senado.”

Dificilmente se compreende que um partido que só se componha de tolos possa fazer o Estado correr sérios perigos; apavorar-se com isto seria fazer crer que se tem medo dos bobos. Soltando esse grito de alarme à face do mundo, prova-se que o partido espírita é alguma coisa. Não tendo podido abafá-lo sob o ridículo, tentam apresentá-lo como um perigo para a tranquilidade pública. Ora, qual será o resultado inevitável desta nova tática? Um exame tanto mais sério e mais profundo mais terá exaltado o seu perigo; quererão conhecer as doutrinas deste partido, seus princípios, sua palavra de ordem, suas filiações. Se o ridículo lançado sobre o Espiritismo, como crença, despertou curiosidade, será bem outra coisa quando for apresentado como um partido temível; cada um está interessado em saber o que ele quer, para onde conduz: é tudo o que ele pede; agindo às claras, não tendo nenhuma instrução secreta, fora do que é publicado para uso de tudo o mundo, ele não teme nenhuma investigação, certo que está, ao contrário, de ganhar por ser conhecido e que, quem quer que o perscrute com imparcialidade, verá em seu código moral uma poderosa garantia da ordem e da segurança. Um partido, pois é um partido, que inscreve em sua bandeira: Fora da caridade não há salvação, indica suas tendências com bastante clareza, para que ninguém tenha razão para o temer. Aliás, a autoridade, cuja vigilância é conhecida, não pode ignorar os princípios de uma doutrina que não se esconde. Não falta gente para lhe dar conta do que se diz e se faz nas reuniões espíritas, e ela bem saberia chamar à ordem as que dela se afastassem. 

É de admirar que homens que fazem profissão de liberalismo, que reclamam com insistência a liberdade, que a querem absoluta para as suas ideias, seus escritos, suas reuniões, que estigmatizam todos os atos de intolerância, queiram proscrevê-la para o Espiritismo.

Mas, vede a que inconsequências conduz a cegueira! 

O debate que ocorreu no Senado foi provocado por duas petições: uma, do ano passado, contra a biblioteca de Saint-Etienne; outra deste ano, contra a biblioteca de Oullins, assinadas por alguns habitantes daquelas cidades, e que reclamavam contra a introdução, naquelas bibliotecas, de certas obras, em cujo número figuravam as obras espíritas. 

Pois bem! o autor do artigo do jornal Liberté, que sem dúvida examinou a questão um tanto levianamente, imagina que a reclamação emana do partido espírita e conclui que este recebeu uma pancada na cabeça pela ordem do dia pronunciada contra a petição de Ouillins. Eis, pois, esse partido tão perigoso, tão facilmente derrubado, e que peticiona para pedir a exclusão de suas próprias obras! Então seria verdadeiramente o partido dos tolos. Aliás, este estranho equívoco nada tem de surpreendente, visto que o autor declara, de início, que não conhecia esse partido, o que não o impede de o declarar capaz de abalar as instituições do império.

Longe de se inquietarem com esses incidentes, os espíritas devem regozijar-se; esta manifestação hostil não podia produzir-se em circunstâncias mais favoráveis, e por certo a Doutrina receberá um novo e salutar impulso, como tem acontecido em todos os levantes de que ela foi objeto. Quanto mais esses ataques repercutirem, mais proveitosos serão. Dia virá em que se transmutarão em aprovações abertas.

O jornal Siècle, de 18 de junho, também publicou seu artigo sobre o partido espírita. Todos aí notarão um espírito de moderação, que contrasta com os dois outros que mencionamos; nós o reproduzimos integralmente:

“Quem disse que não há nada de novo debaixo do sol? O céptico que assim falava não suspeitava que um dia a imaginação de um Conselheiro de Estado faria, em pleno Senado, a descoberta do partido espírita. Já contávamos alguns partidos na França, e Deus sabe se os ministros oradores cometem erro ao enumerar os perigos que podem causar esta divisão dos espíritos! Há o partido legitimista, o partido orleanista, o partido republicano, o partido socialista, o partido comunista, o partido clerical, etc., etc.

“A lista não pareceu bastante longa ao Sr. Genteur. Ele acaba de denunciar à vigilância dos veneráveis pais da política, que têm assento no Palácio do Luxemburgo, a existência do partido espírita. A esta revelação inesperada, um frisson percorreu a assembleia. Os defensores das duas morais, com o Sr. Nisard à frente, estremeceram.

“Quê! A despeito do zelo desses inumeráveis funcionários, o império francês está ameaçado por um novo partido? – Na verdade, é para desesperar da ordem pública. Como este inimigo, invisível até agora ao próprio Sr. Genteur, pôde ocultar-se a todas as vistas? Há nisto um mistério, que o Sr. Conselheiro de Estado, se o penetrar, bem que nos poderá ajudar a compreender. Pessoas oficialmente informadas afirmam que o partido espírita escondia o exército de seus representantes — os Espíritos batedores — atrás dos livros das bibliotecas de Saint-Etienne e de Oullins.

“Eis-nos, pois, de volta aos belos tempos das histórias da carochinha, das mesas girantes e das indiscretas mesinhas de pés-de-galo!

“Embora o Espiritismo e seu primeiro apóstolo, o Sr. Delage — o mais suave dos pregadores – não tenham ainda convencido muita gente, contudo chegaram a constituir um partido. Isto pelo menos se diz no Senado, e não seremos nós que alguma vez nos permitiremos suspeitar da exatidão do que se afirma num lugar tão importante.

“A influência oculta do partido recentemente assinalado se fez sentir até na última discussão do Senado, onde o Sr. Désiré Nisard, um dos maiorais, mostrou-se forte contra os reacionários. Um tal papel cabia de direito ao homem que foi, desde a sua saída da escola normal, um dos agentes mais ativos das ideias retrógradas.

“Depois disto, é para admirar ouvir o honrado senador invocar o arbítrio para justificar as medidas restritivas tomadas a propósito da escolha dos livros da biblioteca de Oullins? “Esse estabelecimentos populares, diz o Sr. Nisard, são fundados por associações; encontram-se, pois, sob o disposto do artigo 291 do Código Penal e, por consequência, à mercê do Ministro do Interior. Ele usou, usa e usará desta ditadura.”

“Deixamos ao partido espírita e ao seu Cristovão Colombo, o Sr. Genteur, Conselheiro de Estado, o cuidado de interrogar os Espíritos reveladores, a fim de que nos digam o que o Senado espera obter impedindo os cidadãos de organizarem livremente as bibliotecas populares, como se pratica na Inglaterra?” (Anatole de la Forge)

Publicado por Allan Kardec na Revista Espírita em julho de 1868. 





Um dos nossos correspondentes de Sens nos transmitiu as observações seguintes, sobre a qualificação de partido, dada ao Espiritismo, a propósito de nosso artigo do mês de julho sobre o mesmo assunto.


“Num artigo do último número da Revista, intitulado: O partido espírita, dizeis que, uma vez que assim nomeiam o Espiritismo, ele o aceita. Mas deve aceitá-lo? Isto talvez mereça um exame sério.

“Todas as religiões, assim como o Espiritismo, não ensinam que todos os homens são irmãos, que são todos filhos de um pai comum, que é Deus? Ora, deveria haver partidos entre os filhos de Deus? Não é uma ofensa ao Criador? porque é próprio dos partidos armar os homens uns contra os outros; e pode a imaginação conceber maior crime que armar os filhos de Deus uns contra os outros?

“Tais são, senhor, as reflexões que julguei dever submeter à vossa apreciação. Talvez fosse oportuno submetê-las, também, à dos benevolentes Espíritos que guiam os trabalhos do Espiritismo, a fim de conhecer a sua opinião. Essa questão talvez seja mais grave do que parece à primeira vista. De minha parte, repugnar-me-ia pertencer a um partido. Creio que o Espiritismo deve considerar os partidos como uma ofensa a Deus.”

Estamos perfeitamente de acordo com o nosso honrado correspondente, cuja intenção só podemos louvar. Contudo, cremos que seus escrúpulos são um pouco exagerados no caso de que se trata, sem dúvida por não ter examinado suficientemente a questão.

A palavra partido implica, por sua etimologia, a ideia de divisão, de cisão e, por conseguinte, a de luta, de agressão, de violência, de intolerância; de ódio, de animosidade, de vingança, coisas todas contrárias ao espírito do Espiritismo. Não tendo o Espiritismo nenhum desses caracteres, pois que os repudia, por suas tendências mesmas, não é um partido na acepção vulgar da palavra, e nosso correspondente tem muitíssima razão para repelir a qualificação deste ponto de vista.

Mas ao nome de partido se liga também a ideia de uma força, física ou moral, bastante forte para pesar na balança, bastante preponderante para que se possa contar com ela; aplicando-o ao Espiritismo, pouco ou nada conhecido, é dar-lhe um ato de notória existência, uma posição entre as opiniões, constatar a sua importância e, como consequência, provocar o seu exame, o que ele não cessa de pedir. Sob esse aspecto, devia repudiar tanto menos essa qualificação, embora fazendo reservas sobre o sentido a ligar a isto, quanto, partida do alto, ela dava um desmentido oficial aos que pretendem que o Espiritismo seja um mito sem consistência, que se gabavam de o haver enterrado vinte vezes. Foi possível julgar do alcance desta palavra pelo ardor desajeitado com o qual certos órgãos da imprensa dela se apoderam para transformá-la num espantalho.

É por esta consideração, e neste sentido, que dissemos que o Espiritismo aceita o título de partido, já que lho dão, porque era engrandecê-lo aos olhos do público; mas não tivemos em vista fazê-lo perder sua qualidade essencial, a de doutrina filosófica moralizadora, que faz sua glória e a sua força. Longe de nós, pois, o pensamento de transformar em partidários os adeptos de uma doutrina de paz, de tolerância, de caridade e de fraternidade. A palavra partido, aliás, nem sempre implica a ideia de luta, de sentimentos hostis; não se diz: o partido da paz? o partido das pessoas honestas? O Espiritismo já provou, e provará sempre, que pertence a esta categoria.

Quanto ao mais, faça o que fizer, o Espiritismo não pode deixar de ser um partido. Com efeito, que é um partido, abstração feita da ideia de luta? é uma opinião que não é partilhada senão por uma parte da população. Mas essa qualificação só é dada às opiniões que contam um número de aderentes bastante considerável para chamar a atenção e representar um papel. Ora, não sendo ainda de todos, a opinião espírita é, necessariamente, um partido em relação às opiniões contrárias, que o combatem, até que os tenha unido a todos. Em virtude de seus princípios, ele não é agressivo; não se impõe; não subjuga; não pede para si senão a liberdade de pensar à sua maneira, seja; mas, desde que é atacado, tratado como pária, deve defender-se e reivindicar para si o que é de direito comum; ele o deve, é seu dever, sob pena de ser acusado de renegar sua causa, que é a de todos os seus irmãos em crença, que não poderia abandonar sem cobardia. Entra, pois, forçosamente na luta, por maior repugnância que experimente; não é inimigo de ninguém, é verdade, mas tem inimigos que procuram esmagá-lo; é por sua firmeza, por sua perseverança e por sua coragem que se lhes imporá; suas armas são completamente diversas das dos adversários, também é verdade; mas não deixa de ser para eles, e apesar deles, um partido, pois não lhe teriam dado este título se não o tivessem julgado bastante forte para os contrabalançar.

Tais são os motivos pelos quais julgamos que o Espiritismo podia aceitar a qualificação de partido, que lhe era dado por seus antagonistas, sem que o tenha tomado por si mesmo porque era aceitar o repto que lhe era lançado. Pensamos que o podia, sem repudiar os seus princípios.

Publicado por Allan Kardec na Revista Espírita em agosto de 1868

EMMANUEL RESPONDE SOBRE EXTREMISMO NA POLÍTICA

 

Que possibilidades existem e que vantagens ou desvantagens adviriam da implantação de um regime extremista no Brasil?


Amigos, que Deus ilumine o vosso entendimento. 

Avesso à política, me sentiria mais à vontade se fosse inquirido acerca do evangelho. Todavia, opiniões são coisas que pouco se custa a fornecer; contudo os meus pareceres são igualmente pessoais como os vossos, sem o caráter da infalibilidade. 

As mais extravagantes teorias políticas têm sido veiculadas no Brasil, cujo povo, guardando tradições de raças diversas, ainda se encontra longe da linha decisiva de sua evolução racial. Tudo aí se mistura e todas as ideias se propagam sem que sejam devidamente estudadas, ponderadas no cadinho da análise mais rigorosa. A implantação de um regime extremista seria um grande erro que o sofrimento coletivo viria certamente expiar. 

De um lado prevalecem as doutrinas dos governos fortes, como a política do “sigma” copiando o fascismo em suas bases; da outra margem se encontra o comunismo, inadaptável ainda à existência da nacionalidade, levando-se em conta o problema da necessidade de braços para o trabalho em uma terra vastíssima à espera das iniciativas e cometimentos de progresso preciso. 

É verdade que a Rússia atual fornece exemplos ao mundo inteiro, porém os homens que inauguraram violentamente os seus novos regimes não se fizeram de um dia para o outro. Eles representavam muitos séculos de opressão, de martírios, de tormentos nefandos. Não saíram do proletariado que se compraz na incultura, mas da energia coordenadora que busca conciliar o labor operário com o trabalho intelectual das academias. 

O Brasil necessita, antes de tudo, combater o magno problema do analfabetismo. É necessário que se solucione o enigma pedagógico que implica toda essa mocidade sem entusiasmo e sem energia para o estudo; para o estado ao qual não se enquadra outro regime fora da democracia liberal, até que o povo se eduque convenientemente para grandes iniciativas do porvir. 

Fora disso é a ilusão portadora dos desenganos trágicos que empobrecem a economia e roubam a paz social. Infelizmente, a ambição, o personalismo, infestam os bastidores da política brasileira, eminentemente prejudicada pela sua visão mesquinha, concernente aos problemas da coletividade. 

Mas o que quereis? O trabalho é dos homens e a eles compete a realização do progresso necessário. Longe do cenário do mundo não nos é lícito influenciar sobre questões distantes da nossa esfera de ação. 

A nossa atividade unicamente se circunscreve ao esclarecimento das almas, pugnando para que as construções da crença sejam novamente reedificadas no templo dos corações humanos, trabalhados pelas concepções amargosas e destruidoras do negativismo. Para atingirmos semelhante desideratum só no Evangelho buscamos os nossos programas de ação. O nosso labor intenso é todo realizado com esse objetivo. Que os homens resolvam de entendimento posto no código da perfeição, legado à Terra por Jesus e estarão de acordo com a evolução que deve presidir a todas as manifestações das nossas atividades nos setores do trabalho humano. 

A Deus elevemos, assim, os nossos votos humildes para que os governantes do Brasil se acautelem com a infiltração de ideias contrárias ao bem-estar social e em desacordo com a sua vida de nacionalidade nova e apta desempenhar um papel muito preponderante no seio da humanidade.

Francisco Cândido Xavier pelo espírito Emmanuel no Livro "Palavras do Infinito".

terça-feira, 18 de setembro de 2018

JESUS E CÉSAR

Que seria do Cristianismo se Jesus recorresse à proteção de César? Possivelmente, alguns patrícios simpáticos à nova doutrina se encarregariam da obtenção do alto favor. Legiões de soldados viriam garantir o Messias e os amigos do Evangelho alinhar-se-iam à força da espada, não mais de ouvidos espontâneos, mas com a atenção absorvida na postura oficial. Pedro e João, Tiago e Felipe adotariam certas normas de vestir, segundo os programas imperiais, e o próprio Cristo, naturalmente, não poderia ensinar as verdades do Céu, sem prévia audiência das autoridades convencionalistas da Terra. Provavelmente, o Mestre teria vencido exteriormente todos os adversários e dominaria o próprio Sinédrio.

Mas… e depois? 

Sem dúvida, ter-se-ia fundado expressiva e bela organização político-religiosa, repleta de preceitos filosóficos, severos e regeneradores. Mateus teria envergado a túnica do escriba estilizado, enquanto Simão gozaria de honras especiais e o próprio Jesus passaria à condição de um Marco Aurélio, cheio de austeridade e nobreza, interessado em ensinar a justiça e a sabedoria, mas em cujo reinado se verificariam perseguições das mais terríveis e sangrentas ao Cristianismo, sem que as ocorrências dolorosas lhe merecessem consideração.

O Mestre, contudo, compreendia a necessidade das organizações humanas, exemplificou o respeito à ordem política, mas, acima de tudo, serviu ao Reino de Deus, de que era representante e portador, neste mundo de experiências provisórias, dirigindo seu Evangelho de Amor, não só ao homem físico, mas essencialmente ao homem espiritual.

Sabia Ele que as organizações religiosas, propriamente ditas, existiam entre as criaturas, muito antes dos templos de Baal. Urgia, porém, entregar aos filhos da Terra a herança do Céu, integrá-los na doutrina viva do bem e da verdade, estabelecer caminhos entre a sombra e a luz, aperfeiçoar caracteres, purificar sentimentos, elevar corações, instituir a universidade do Reino de Deus e sua justiça. Entendia que a sua obra era de semeadura, germinação, crescimento, tempo e trabalho constante.

E plantou com o seu exemplo o Cristianismo sublime no campo da Humanidade, ensinando o acatamento a César, cooperando no aperfeiçoamento de suas obras, mas fazendo sentir que César constituía a autoridade respeitável no tempo, enquanto o Pai guarda o poder divino na eternidade.

Na exemplificação do Cristo, o Espiritismo evangélico, na sua condição de Cristianismo redivivo, deve procurar as suas diretrizes, edificantes no terreno da nova fé. As organizações políticas, de natureza superior, são sempre dignas e respeitáveis e todos os seguidores do Evangelho devem honrar-lhes os programas de realização e progresso coletivo, acatando-lhes as instituições e contribuindo para o seu engrandecimento, na esfera evolutiva, mas não se pode exigir, da política de ordem humana, a solução dos problemas transcendentes de ordem espiritual.

Na atualidade do mundo, o Espiritismo é aquele Consolador prometido, enfeixando nova e bendita oportunidade de redenção. Em seu campo doutrinário, a verdade de Deus não está algemada, seus felizes estudantes e seguidores podem aquecer o coração ao sol da liberdade íntima, sem obstáculos na marcha da consciência para a realização divina.

Aos espiritistas dos tempos novos, portanto, surgem lições vivas, que não podem relegar ao esquecimento.

O sacerdócio organizado costuma ser o cadáver do profetismo. O culto externo nem sempre favorece a luz da revelação. A teologia, na maior parte das vezes, é o museu do Evangelho.

Urge, pois, em todas as circunstâncias, não olvidar Aquele que auxiliou romanos e judeus, atendendo ao povo e respeitando as autoridades, dando a César o que era de César e a Deus o que é de Deus, ensinando, porém, que o seu reino ainda não é deste mundo.

Francisco Cândido Xavier pelo espírito Emmanuel, no livro "Coletâneas do além" publicado em setembro de 1945. 

AS SENTINELAS DA LUZ DO SANTUÁRIO

A tempestade avizinha-se nos horizontes políticos e sociais do mundo inteiro.

Todas as vozes falam de um perigo iminente e todos os corações sentem algo de estranho no ar que respiram.

Fala-se no coletivismo, recolhendo-se cada qual no exclusivismo feroz, e fala-se de nacionalismo e de pátria, dentro do mesmo conceito de egoísmo e de isolamento.

Esses extremismos caracterizam um período de profunda decadência nos costumes sociais e políticos desta época de transições.

Apesar, porém, de sua complexidade, esse fenômeno pode ser definido como a angústia generalizada do homem, nas vésperas de abandonar a sua crisálida de cidadão. 

Todos os acontecimentos que abalam o planeta, espalhando nos seus recantos mais remotos uma onda revolucionária e regeneradora, significam o trabalho intenso e difícil da laboriosa gestação do novo organismo de leis pelo qual se regerão, mais tarde, os institutos terrenos. 

Ditadores e extremismos são expressões transitórias dessa fase de experiências dolorosas porque a verdade é que o cidadão da pátria será substituído pelo homem fraterno, irmão dos seus semelhantes e compenetrado dos seus deveres de amor. 

Muitas dores implicam, por certo, nessa transformação das fórmulas patrióticas da atualidade, mas as democracias avançadas guardam, na sua estrutura, as sementes desse luminoso porvir. 

Todavia, se falamos com respeito a esse assunto, é para dizermos aos nossos irmãos espiritualistas que eles são as sentinelas da Luz do Santuário, à maneira dos antigos heróis que guardavam as primícias do fogo sagrado. 

Na hora das sombras, quando a subversão ameaçar o planeta, compete-lhes fornecer o testemunho de sua fé, como um penhor de segurança para as gerações do futuro. 

A tarefa do Espiritismo está, portanto, adstrita à realização do Homem Interior, dentro de um novo conceito de fraternidade. 

Fora desses princípios, as atividades de cada qual serão como folhas volantes, dentro do seu caráter dispersivo, porque todo o nosso esforço está enquadrado no “amarmo-nos uns aos outros” (João 13,34) e é essa fórmula que deverá representar a bússola das atividades dos espiritualistas sinceros, os quais, com os seus abençoados sacrifícios, serão os “engenheiros sociais” dos tempos do porvir.

Francisco Cândido Xavier pelo espírito Emmanuel, no livro "Esperança e Luz", capítulo 3, publicado em março de 1993. 

POLÍTICA DIVINA

“Eu, porém, entre vós, sou como aquele que serve.” — JESUS (Lucas, 22.27)
O discípulo sincero do Evangelho não necessita respirar o clima da política administrativa do mundo para cumprir o ministério que lhe é cometido.

O Governador da Terra, entre nós, para atender aos objetivos da política do amor, representou, antes de tudo, os interesses de Deus junto do coração humano, sem necessidade de portarias e decretos, respeitáveis embora.   

Administrou servindo, elevou os demais, humilhando a si mesmo. 

Não vestiu o traje do sacerdote, nem a toga do magistrado. 

Amou profundamente os semelhantes e, nessa tarefa sublime, testemunhou a sua grandeza celestial. 

Que seria das organizações cristãs, se o apostolado que lhes diz respeito estivesse subordinado a reis e ministros, câmaras e parlamentos transitórios? 

Se desejas penetrar, efetivamente, o templo da verdade e da fé viva, da paz e do amor, com Jesus, não olvides as plataformas do Evangelho Redentor. 

Ama a Deus sobre todas as coisas, com todo o teu coração e entendimento. 

Ama o próximo como a ti mesmo. 

Cessa o egoísmo da animalidade primitiva. 

Faze o bem aos que te fazem mal. 

Abençoa os que te perseguem e caluniam. 

Ora pela paz dos que te ferem. 

Bendize os que te contrariam o coração inclinado ao passado inferior. 

Reparte as alegrias de teu espírito e os dons de tua vida com os menos afortunados e mais pobres do caminho. 

Dissipa as trevas, fazendo brilhar a tua luz. 

Revela o amor que acalma as tempestades do ódio. 

Mantém viva a chama da esperança, onde sopra o frio do desalento. 

Levanta os caídos. 

Sê a muleta benfeitora dos que se arrastam sob aleijões morais. 

Combate a ignorância, acendendo lâmpadas de auxílio fraterno, sem golpes de crítica e sem gritos de condenação. 

Ama, compreende e perdoa sempre. 

Dependerás, acaso, de decretos humanos para meter mãos à obra? 

Lembra-te, meu amigo, de que os administradores do mundo são, na maioria das vezes, veneráveis prepostos da Sabedoria Imortal, amparando os potenciais econômicos, passageiros e perecíveis do mundo; todavia, não te esqueças das recomendações traçadas no Código da Vida Eterna, na execução das quais devemos edificar o Reino Divino, dentro de nós mesmos. 

Francisco Cândido Xavier pelo espírito Emmanuel no livro "Vinha de Luz" lição 59, publicado em novembro de 1951. 

terça-feira, 14 de agosto de 2018

A GUINADA CONSERVADORA AMEAÇA OS POBRES

Nós brasileiros precisamos ter a consciência da gravidade do momento político, social, econômico e moral que vivemos nos últimos meses. No difícil ano de 2016, o País viu-se diante de projetos e decisões congressuais – alguns já implementados – que claramente trarão em curto e médio prazo consequências graves para os trabalhadores e os pobres. O rotundo silêncio do presente contrasta, inexplicavelmente, com o rotundo barulho do ontem.
 
A conscientização e mobilização contra a chamada PEC 241 na Câmara Federal e PEC 55 no Senado, que mereceu nossa atenção e apoio, não lograram resultado. Como compreender a lógica do corte no social e na educação e ao mesmo tempo o aumento nos ministérios, nos salários de algumas categorias já bem enriquecidas em relação à grande massa de assalariados e desempregados no País? Assuntos outros como a polêmica reforma do ensino médio, a redução da maioridade penal, a reforma da Previdência Social, a transferência da responsabilidade pela demarcação das terras indígenas do poder Executivo para o Legislativo, como a inapetência do Estado frente ao contínuo agravamento das condições devida das populações indígenas, as mudanças no estatuto do desarmamento, as alterações em leis trabalhistas, o preenchimento de inúmeros cargos importantes com políticos, empresários e juristas sob suspeita ou em adiantado processo de investigação, apontam, infelizmente, para sérios retrocessos em diversas conquistas que resultaram da mobilização de milhões de brasileiros desde tempos nem tão recentes, como o da Constituinte, por exemplo. 
 
É inegável que são propostas que, a despeito das fartas justificativas e explicações de natureza econômica e financeira, significarão ainda mais riscos, perdas e sacrifício para os pobres. Mas não apenas estes. Famílias da chamada classe média veem rapidamente diminuir seu poder de compra, tendo que adiar sonhos como o de possuir o imóvel próprio, aumentar a família, formar os filhos na universidade ou que seja viajar e descansar da rotina de trabalho, cada vez mais massacrante e, com a pretendida reforma da Previdência, com perspectivas muito longínquas de aposentadoria. A mortalidade precoce ronda cada vez mais as micro e pequenas empresas, que mal conseguem pagar os salários de seus poucos funcionários. 
 
Mas a reação governamental a isso tem sido, por um lado, a defesa dos interesses do grande capital e, por outro, a exigência de sacrifícios dos mais pobres e a agudização das condições de sobrevivência da microeconomia e da própria economia doméstica. Mais do que poupado, o sistema financeiro é novamente privilegiado. Como no mundo todo, os bancos vão bem melhor que o País. Aliás, difícil lembrar no Brasil algum momento em que banqueiros tenham reclamado de decisões econômicas. A mais terrível síndrome brasileira da “Casa Grande & Senzala” arraigada no modus operandis, faciendi e vivendi sociopolítico, governamental, empresarial e, assombremo-nos todos, também do judiciário. 
 
Se a economia é que, em geral, mais impacta as pessoas, não devemos nos distrair em relação aos outros setores da vida social. Um fenômeno que parece, ao mesmo tempo, se dar também em vários países do mundo, o Brasil testemunha neste momento uma triste desaceleração e recuo em iniciativas de resgate da dignidade popular. Somada à crise econômica que, como sempre, atinge de modo mais draconiano e covarde os empobrecidos, observamos, claramente, no País, na política e nos direitos sociais, uma guinada conservadora e neoliberal. 
 
Importantes conquistas em termos dos dispositivos e dinâmicas de participação democráticas nas políticas públicas e diretamente nos governos dos municípios e estados via associações de bairros, de categorias profissionais, grupos sociais e redes de apoio comunitário vão se fragilizando e desmaterializando. É lamentável observar como a cidadania no Brasil, mantida historicamente em situação anêmica e emudecida, volta a ser constrangida, na exata hora em que reanimava-se e reunia forças para erguer a cabeça e caminhar. 
 
Pode-se mencionar aqui as paradoxais medidas de imputar penalmente os adolescentes – pessoa adulta em formação – e permitir que os recém-adultos possam portar armas de fogo, o que certamente não significará a diminuição ou maior controle da violência. Pelo contrário, tudo sugere que aumentará a verdadeira guerra civil que, anualmente, dizima dezenas de milhares de brasileiros em mortes por arma de fogo, especialmente os mais jovens e negros, muitos pelas forças que deviam proteger a população. Tragédia sobre a qual a sociedade simplesmente silencia. 
 
Assim como também a mídia e a maior parte da sociedade não se pronunciam sobre o gravíssimo momento enfrentado pelas populações indígenas brasileiras. Nesses quase 30 anos de vigência da Constituição, que estabeleceu avanços importantes de proteção aos direitos indígenas e das populações tradicionais, essas comunidades talvez estejam enfrentando hoje os riscos mais graves do que em qualquer outro momento desde o início da vigência da atual Carta Magna. É a conclusão de um relatório apresentado ao Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas. O relatório chama a atenção para um aspecto que parece bem sintomático do Brasil atual, em que o Estado insiste em viver divorciado da sociedade civil. O País dispõe de uma série de disposições constitucionais exemplares em relação aos povos indígenas, mas não as aplica e o que se percebe é a deterioração intensa das condições de vida desses povos. 
 
Nenhuma nação pode realizar-se em meio a tanta desigualdade. É papel precípuo da Universidade não só expressar sua solidariedade às massas de pobres, trabalhadores empregados ou não, homens e mulheres de boa vontade e de todas as idades, como também contribuir para a formação da consciência crítica, cidadã, ecológica integral, progressista, ética, arejada, humanizada, inclusiva, justa e livre.

Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães
Bispo auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte
Reitor da PUC Minas

Publicado originalmente em Arquidiocesebh.org.br

quinta-feira, 26 de julho de 2018

ESMOLA E ORAÇÃO

Em matéria de esmola e oração, não olvidemos conjugar os verbos pedir, obter e dar, para que se nos aperfeiçoe o sentimento.

Em verdade, asseverou-nos Jesus: — “Procurai e achareis”. 

Mas, afirmou igualmente: — “Brilhe vossa luz” 

Sem dúvida, advertiu-nos, bondoso: — “Pedi e dar-se-vos-á” 

Entretanto, acrescentou: — “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei”.

Realmente, cada dia, rogas para teu filho a Bênção Celestial, em forma de saúde e segurança, bondade e inteligência, contudo, não te esqueças de que podes, na maioria das circunstâncias, descer do trono doméstico e estender fraternos braços aos filhinhos alheios, que tremem de frio ou que soluçam de fome, para quem significarás resposta sublime a dolorosos apelos. 

Pedes alegria ao Todo-Misericordioso e, decerto, o Todo Misericordioso reconfortar-te-á o coração abatido, no entanto, aprende também a ser o consolo dos que vagueiam, desesperados, na noite da perturbação e do sofrimento, quando não jazem aprisionados nos calabouços do crime. 

Suplicas amparo em favor daqueles que mais amas, endereçando ao Senhor comoventes requisições que atingem a Glória Eterna, mas, não abandones o próximo necessitado, que, tanta vez, te espera o auxílio afetuoso, metamorfoseado em alimento e remédio, perdão e entendimento. 

Não faças, porém, da caridade a esmola constrangida que se entrega, à força, a quem te solicita o supérfluo. 

Acorda tua alma à luz do amor infatigável e auxilia, espontaneamente, à maneira dos talentos do sol e da chuva, da flor e da fonte que descem do Tesouro Divino sem aguardar-te petitórios e chamamentos. 

Cultiva a prece com humildade, devotamento, fidelidade e fervor. Contudo, jamais te esqueças de que, da esmola que verte pura da Providência de Deus para as tuas necessidades, é indispensável retires alguma parte em favor daqueles que te rodeiam, a fim de que a tua oração não se faça delituosa exigência na Terra, mas, sim, flama abençoada e resplendente nos Céus.

(Francisco Cândido Xavier pelo espírito Emmanuel, publicado originalmente em outubro de 1958 no Brasil Espírita).

terça-feira, 17 de abril de 2018

A ÉTICA E A MATEMÁTICA

É possível, caro leitor, definir o valor de um homem usando a Matemática? 

Pois foi exatamente isso que fez Al-Khwarizmi, ilustre matemático persa do século IX. 

Pediram-lhe falar sobre o ser humano. Ele respondeu: 

– Podemos montar uma equação: Se um homem tiver ética, ele é = 1.

Se inteligente, acrescente um zero. Será = 10.

Se rico, outro zero. Será = 100.

Se belo, mais um zero. Será = 1.000.

Mas, se perder a unidade, o um correspondente à ética, restarão apenas zeros.

Inteligência, riqueza e beleza geralmente distinguem pessoas famosas em seu setor de atividades. Não obstante, todo o mal do mundo repousa no fato de faltar à maioria valores éticos a orientar sua conduta.

Há homens de grande inteligência, ocupando cargos importantes, mas cometendo toda sorte de arbitrariedades.

Há empresários e políticos riquíssimos, comprometidos com a corrupção.

Há mulheres famosas pela beleza, mas usando-a como recurso de sedução, a fim de alcançarem prestígio e notoriedade.

Sob o ponto de vista humano, são vitoriosos.

Espiritualmente situam-se como candidatos certos a estágios depurativos em regiões umbralinas, quando desencarnarem, aprendendo, à custa de muito sofrimento, que, sem ética, seus sucessos foram zeros, perdidos nas ilusões do mundo.

Conforme o Dicionário Houaiss, ética seria o “conjunto de regras e preceitos de ordem valorativa e moral de um indivíduo, de um grupo social ou de uma sociedade”.

Oportuno lembrar: não vivemos em ilha deserta. Na vida em sociedade situamo-nos num círculo imenso de pessoas, onde, por princípio básico de civilidade, devemos respeitar regras instituídas, princípios éticos, a fim de convivermos pacífica e proveitosamente.

Há um probleminha.

Dizia Martin Luther King que nosso mundo é orientado por um relativismo ético. Se a maioria adota determinado comportamento, ele passa a ser o correto.

Em tempo de segregação racial, nos Estados Unidos, a ética da sociedade preconceituosa dizia que o negro não podia entrar num clube, escola, cinema ou qualquer outro recinto reservado aos brancos. Homens zero desfrutavam de direitos negados a homens discriminados pela cor da pele, embora debaixo dela fossem todos absolutamente iguais.

No século XIX, bem próximo, era ético ter escravos. Hoje é prática abominável, passível de punição pela autoridade constituída.

Em tempos bíblicos, o adultério era punido com a morte dos envolvidos. Na atualidade deixou de ser crime, e é largamente exercitado por ambos os sexos, em demonstração de virilidade e autoafirmação.

Em décadas passadas era antiético tatuar o corpo, iniciativa própria dos criminosos nas prisões, como uma espécie de distintivo. Hoje essa iniciativa é encarada como maquiagem definitiva e faz a fortuna dos tatuadores, atendendo à demanda, principalmente entre os jovens.

Acima desse relativismo, apontado por King, haverá o princípio ético atemporal e universal, que sirva para todos os tempos e todas as sociedades?

Sem dúvida! Está entre nós há dois mil anos, formulado por Jesus. O princípio capaz de organizar e pacificar qualquer sociedade, permitindo que vivamos em paz em qualquer situação.

Está contido em o Sermão da Montanha, capítulos 5 a 7, do Evangelho de Mateus. São poucas páginas de o Novo Testamento, mas com material para uma vida de reflexões e uma orientação de caráter eterno e universal.

Deveríamos ler diariamente essas páginas iluminadas, apresentadas com a simplicidade da sabedoria autêntica e a profundidade da verdade revelada.

Cumprindo-as, estaremos colocando a unidade ética à frente de todos os valores humanos, habilitando-nos a “notas altas” nos testes que a vida nos impõe, frequentemente.

Ainda que não tenhamos vocação para a reflexão mais apurada, um versículo apenas, se observado com fidelidade e persistência, nos garantirá ótimo aproveitamento ético.

É quando Jesus afirma:

“Assim, tudo quanto quereis que os homens vos façam, assim também fazei vós a eles[…]” (Mateus, 7:12). 

Texto publicado originalmente no site da FEB